Saúde
Beber chá ou café menos quente pode reduzir risco de câncer de esôfago, sugere estudo
Em estudo no Reino Unido, consumo de bebidas em temperatura "muito quente" foi associado a um risco três vezes maior de câncer em comparação com "morna"
VEJA
Em populações que bebem café e chá com frequência, reduzir a temperatura de consumo de bebidas quentes pode ser uma medida importante para prevenir o câncer de esôfago. É o que sugere um estudo conduzido pela Universidade de Oxford, que avaliou quase 1 milhão de adultos no Reino Unido para investigar a relação entre o risco desse tipo de câncer e a temperatura das bebidas, assim como a frequência de consumo.
Pesquisas anteriores conduzidas em outras regiões, como no Japão, Irã e na América do Sul, já tinham encontrado uma associação entre o consumo frequente de bebidas quentes e câncer de esôfago, mas a maioria delas foi realizada em lugares onde os tipos e temperaturas das bebidas são muito específicas, como o mate, popular em países como Argentina, Uruguai e na região sul do Brasil.
O estudo, publicado na revista científica International Journal of Cancer na terça-feira, 8, é descrito pelos próprios autores como o maior e mais amplo já feito sobre esse tema e, para os pesquisadores, pode ajudar na compreensão do potencial impacto carcinogênico dos padrões de consumo de bebidas quentes típicos das populações ocidentais.
“Este amplo estudo fornece evidências robustas de que a temperatura da bebida, bem como a frequência do consumo de bebidas quentes, provavelmente são fatores de risco substanciais para o carcinoma espinocelular (CEC). Nossos resultados sugerem que reduzir a temperatura da bebida em populações onde chá e café são consumidos frequentemente pode oferecer um meio importante de prevenção do CEC”, afirma o estudo.
A análise utilizou dados combinados de cerca de 980.000 participantes de dois grandes estudos de coorte do Reino Unido, o Million Women Study (MWS) e o UK Biobank. Eles foram questionados sobre como preferiam consumir bebidas quentes, com as seguintes possibilidades de resposta:
Os voluntários também foram questionados sobre quantas xícaras de chá e café consumiam por dia, número que foi somado para determinar a ingestão total de bebidas quentes e categorizado como “menos de 6 bebidas quentes por dia” ou “6 ou mais bebidas quentes por dia”.
Em ambas as coortes, pouco menos da metade dos participantes relatou consumir 6 ou mais bebidas quentes por dia e cerca de 15% dos participantes relataram preferência por consumir bebidas em temperatura muito alta.
Existem dois tipos de câncer de esôfago, o adenocarcinoma, que começa nas glândulas desse órgão e está relacionado à doença do refluxo e ao esôfago de Barrett, e o carcinoma espinocelular, também chamado de carcinoma de células escamosas, associado ao fumo e ao consumo de álcool.
Os participantes do estudo MWS foram acompanhados ao longo de 14 anos, período em que ocorreram 799 casos de carcinoma espinocelular, o tipo mais comum de câncer de esôfago, e 617 casos de adenocarcinoma do esôfago. Já no estudo UKB, durante um acompanhamento médio de 11 anos, os números correspondentes de casos foram 246 e 686, respectivamente.
De acordo com o estudo, em ambas as coortes, o risco relativo do tipo mais comum de câncer de esôfago cresceu conforme o aumento da temperatura da bebida consumida.
O consumo de bebidas em temperatura “muito quente” em comparação com a temperatura “morna” foi associado a um risco três vezes maior de câncer.
Além disso, o consumo diário de seis ou mais bebidas quentes em comparação com menos de seis bebidas quentes foi associado a um aumento de 71% no risco de CEC.
Por outro lado, não houve evidência de qualquer associação entre a temperatura da bebida e o risco de adenocarcinoma esofágico em nenhuma das coortes. O resultado permaneceu o mesmo independentemente do tipo da bebida, o que, segundo os pesquisadores, mostra que a temperatura do líquido, e não seus componentes, é o fator de risco em discussão.
No Brasil, o câncer de esôfago é o sexto mais frequente entre os homens e o 15º entre as mulheres, sem considerar o câncer de pele não melanoma. O Instituto Nacional do Câncer (INCA) aponta ao menos oito fatores que podem aumentar o risco da doença:
No caso das bebidas quentes, o mecanismo mais provável é a lesão térmica, “uma vez que esses cânceres normalmente surgem de células escamosas nos dois terços superiores do esôfago, que seriam mais suscetíveis aos efeitos de líquidos quentes“, aponta o estudo.
Segundo os autores, os resultados são semelhantes a estudos de coorte realizados na China, no Irã e no Japão, que também identificaram um risco maior de carcinoma espinocelular associado ao consumo frequente de bebidas com temperaturas altas.
No entanto, o estudo afirma que há limitações em se confiar em limiares de temperatura fixos, como 65 °C, considerando a “variabilidade nas exposições térmicas no mundo real”. Os pesquisadores afirmaram que o risco maior geralmente é observado não apenas por causa das temperaturas mais altas, mas também em conjunto com outros três fatores:
Os autores ponderam que uma das limitações da análise foi que a temperatura da bebida era relatada pelos próprios participantes e, portanto, não havia dados sobre a temperatura absoluta da bebida. É também provável que as percepções subjetivas da temperatura variem até certo ponto entre populações e ao longo do tempo, podendo, portanto, não ser interpretadas de forma consistente, diz o estudo.
Segundo a pesquisa, porém, a proporção estimada de casos de câncer do esôfago que seriam prevenidos se os indivíduos que consomem bebidas muito quentes passassem a consumi-las em temperatura morna é de 14%, equivalente a 440 casos de câncer a menos por ano.
“O fato de termos observado uma clara tendência de risco entre as categorias de temperatura autodeclaradas sugere que limitar ainda mais a temperatura na qual os indivíduos consomem suas bebidas para algo bem abaixo da média para essa população pode evitar uma proporção ainda maior de casos de CEC“, sugerem os autores.
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