Política
Direita aposta no antipetismo para enfrentar favoritismo de Lula na eleição
Mesmo com problemas sérios de articulação política, oposição segue competitiva graças à rejeição de parte dos eleitores ao histórico de escândalos do PT
VEJA
Em determinados momentos do terceiro mandato de Lula, oposicionistas e até aliados especularam sobre a possibilidade de o presidente não disputar a reeleição. O debate emergia quando o petista enfrentava crises de popularidade. Foi o que ocorreu em abril, quando a desaprovação ao governo superou a aprovação por 9 pontos percentuais, e Flávio Bolsonaro (PL) apareceu numericamente à frente do mandatário numa simulação de segundo turno (42% a 40%), conforme levantamento da Genial/Quaest. Na época, dizia-se que Lula poderia desistir de tentar um novo mandato por medo de encerrar sua carreira eleitoral com uma derrota nas urnas. Octogenário, ele sairia de cena para evitar um epílogo desabonador em sua biografia. Hoje, esse tema parece superado.
O presidente recuperou prestígio, melhorou a imagem de sua gestão e avançou nas pesquisas eleitorais, impulsionado por um pacote de bondades estimado em cerca de 200 bilhões de reais e pela desorganização da direita. A menos de três meses da votação, Lula voltou a ser favorito, mas a sua consagração depende ainda da superação de obstáculos consideráveis. Um deles é o antipetismo, que contribuiu de forma decisiva para a vitória de Jair Bolsonaro sobre Fernando Haddad em 2018 e, oito anos depois, ainda funciona como motor dos presidenciáveis da oposição. De acordo com a Genial/Quaest, a rejeição ao PT variou de 36% a 42% entre fevereiro e julho de 2026 (veja o quadro). Ou seja: pelo menos um terço do eleitorado se recusa a votar na legenda. Esse dado ganha relevância diante da possibilidade de a corrida presidencial ser decidida, mais uma vez, por uma diferença apertada, como foi em 2022, quando Lula superou Jair Bolsonaro por apenas 2 milhões de votos.
A aversão de parte do eleitorado à legenda tem como causa preponderante os escândalos de corrupção protagonizados por petistas e aliados. Em vez de reconhecer os erros e fazer um mea-culpa, o PT prefere até hoje desdenhar das acusações e tentar reescrever a história. Para Lula, o mensalão — esquema de compra de apoio parlamentar com recursos desviados dos cofres públicos — foi uma conspiração da elite. Já a Operação Lava-Jato, que desmontou uma engrenagem bilionária de corrupção entre empreiteiras e partidos governistas, não passaria de uma articulação estrangeira para se apoderar das reservas de petróleo do pré-sal. Além disso, é recorrente o esforço para redimir companheiros que foram condenados e presos, como o ex-ministro José Dirceu, que concorrerá a deputado federal com o apoio do presidente. “O petismo passou a ser identificado pela oposição como corrupção e é isso que mobiliza o bolsonarismo, embora saibamos que a corrupção no Brasil não está apenas no PT e em Lula”, diz Alberto Aggio, professor da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Outros fatores contribuem para a força e a persistência do antipetismo. É o caso das recaídas ideológicas da sigla na política externa que resultaram, por exemplo, na defesa que Lula fez de ditaduras de esquerda. É o caso também da recessão histórica legada por Dilma Rousseff, que teve o mandato cassado, e da fé partidária em receitas econômicas ultrapassadas, como a aposta na gastança para impulsionar a economia e o apego às estatais, inclusive as deficitárias, como os Correios, que registraram um prejuízo de 3,1 bilhões de reais só no primeiro trimestre deste ano. Na coordenação da campanha à reeleição, está sendo travado um embate entre os adeptos do mantra “gasto é vida” e os defensores de um ajuste fiscal. Ao arbitrar a disputa, Lula sinalizará se intensificará ou reduzirá a sangria dos cofres públicos em eventual quarto mandato. O presidente nunca gostou da palavra “corte”, mas tem bons motivos para mudar de posição. Hoje, a rejeição a seu nome é ainda maior do que o antipetismo. Segundo a Genial/Quaest, 50% dos entrevistados dizem que não votariam nele. Em outro recorte, 51% afirmam que o petista não merece mais um mandato.
Contribuem para esse desgaste a falta de resultados na área da segurança pública e o mau humor do eleitorado com a economia — especialmente com o custo de vida e o preço da comida. Esses flancos foram explorados por Jair Bolsonaro na carta em que escreveu pedindo que a direita se unisse em defesa da candidatura de seu primogênito: “O momento é de arregaçar as mangas, deixarmos de lado as possíveis diferenças, e cada um se empenhar pelo nosso pré-candidato Flávio Bolsonaro, a melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e empobrecimento”.
Quando confrontados com os esquemas de corrupção, petistas costumam dizer que Flávio Bolsonaro também é alvo de acusações e que nenhuma legenda corta na própria carne em público. Assim, não haveria razão para o PT fazer diferente. Eles também reconhecem a força do antipetismo, mas dizem que a prioridade nunca foi converter votos nesse segmento, mas ganhar terreno entre os eleitores independentes, que são considerados decisivos no processo eleitoral. Nesse nicho, Lula deu uma virada e aparece à frente de Flávio Bolsonaro na simulação de segundo turno (40% a 27%). O presidente e seus aliados se mostram um tanto tranquilos porque o antipetismo hoje é um pouco menor do que o antibolsonarismo, que variou de 39% a 44% entre fevereiro e julho.
Essa suposta zona de conforto poderia acabar se outro postulante da oposição, sem o desgaste do sobrenome do capitão, conseguisse avançar no páreo. Segundo pesquisa Real Time Big Data divulgada na terça-feira 21, o ex-governador Ronaldo Caiado, do PSD, chega a superar numericamente Lula nas simulações de segundo turno (44% a 43%), em desempenho um pouco superior ao de Flávio no confronto com o petista (42% a 45%). Para se tornar o candidato que enfrentará o presidente na fase final, no entanto, Caiado precisa avançar no primeiro turno, o que tem sido difícil. Há quatro meses em campanha, o ex-governador não conseguiu sequer chegar à casa de dois dígitos de intenções de votos. Segue muito distante de Flávio e atrás até de candidatos como Renan Santos, do Missão.
Ainda que continue sendo o nome mais forte da direita, o Zero Um perdeu fôlego nas pesquisas nos últimos meses e sua trajetória até aqui parece um guia prático definitivo sobre tudo o que fazer para fracassar numa eleição. Além da briga com Michelle Bolsonaro, Flávio enfrenta a desconfiança de aliados em razão do pedido de ajuda financeira que fez ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro supostamente para financiar o filme Dark Horse. Já alas bolsonaristas torpedeiam diariamente o coordenador da campanha, o senador Rogério Marinho, acusado de centralizar demais as decisões. As declarações desastradas do senador também representam uma enorme dor de cabeça. Nos últimos dias, ele deu até para desconfiar da segurança das urnas eletrônicas, ressuscitando uma das teorias conspiratórias favoritas do bolsonarismo.
Na sequência, tentou corrigir a bobagem, mas o estrago já estava feito. “A sorte do Lula é a desorganização da direita e o isolamento crescente da candidatura de Flávio Bolsonaro”, afirma Alberto Aggio. Mesmo abusando da máquina pública, e mesmo com o festival de erros, trapalhadas e confusões na oposição, o presidente não consegue abrir vantagem folgada nas simulações de segundo turno. Ele enfrenta um problema de “fadiga de material”: suas propostas já não encantam mais, como no passado, nem estão à altura de um mundo que mudou bastante desde a chegada dele ao Palácio do Planalto pela primeira vez, em 2003. Desarticulados, os adversários continuam competitivos — não por méritos próprios, mas em razão do antipetismo e do alto nível de rejeição a Lula, nos quais os oposicionistas apostarão cada vez mais pesado até o dia da eleição.
Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005
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