Política
Candidatos à Presidência intensificam a segurança pessoal em meio aos alertas da polarização
Ambiente de campanha espelha a preocupação número 1 dos brasileiros
VEJA
Jair Bolsonaro nunca escondeu que tinha uma preocupação extremada com a segurança pessoal. Na campanha de 2018, o então candidato evitava, entre outras coisas, viajar em aviões de pequeno porte. Temia que a aeronave fosse alvo de sabotagem. O atentado a faca que por pouco não lhe custou a vida mostrou que os cuidados não eram fruto de paranoia. Depois, já no Palácio do Planalto e com toda a estrutura oficial de proteção, o então presidente ainda assim só dormia com uma pistola debaixo do travesseiro. O comportamento de Flávio Bolsonaro não é tão radical, mas alguns fantasmas são parecidos. Desde que o assumiu o mandato, o senador é escoltado por policiais. Como pré-candidato do PL à Presidência, ampliou o aparato e um colete à prova de balas passou a fazer parte de sua indumentária. Apesar do receio de que algo parecido com o que aconteceu com o pai possa se repetir, Flávio anunciou que pretende dispensar a equipe de segurança que a Polícia Federal coloca à disposição dos candidatos durante o período eleitoral. O parlamentar desconfia que o governo pode usar essa brecha para infiltrar espiões em sua campanha.
As pesquisas são unânimes em apontar o combate à violência e à criminalidade como a prioridade número 1 dos brasileiros. A constatação reflete não só nas narrativas difundidas durante a campanha presidencial, mas também na preocupação dos candidatos com sua própria proteção. Especialistas não acreditam que o crime organizado tenha políticos na mira, como se observa há algum tempo em países como o México e a Colômbia. “Ações assim atrapalhariam os negócios desses grupos, cada vez mais infiltrados em atividades econômicas com fachada de legalidade”, avalia Mario Sarrubbo, ex-secretário nacional de Segurança Pública. Ainda assim, não há como descartar o risco de a polarização e o discurso de ódio servirem de gatilho para ações isoladas, como aconteceu com Jair Bolsonaro. Por isso, seja por cálculo político ou por temores justificáveis, os presidenciáveis estão fortalecendo seu aparato de segurança.
Flávio Bolsonaro não quer a Polícia Federal por perto, mas triplicou o número de policiais legislativos em sua equipe. Os demais presidenciáveis vêm adotando precauções semelhantes em meio à corrida ao Palácio do Planalto. O empresário Renan Santos (Missão-SP), que apareceu em terceiro lugar na última pesquisa Real Time Big Data, antecipou a convenção que oficializou seu nome para a disputa para poder contar imediatamente com escolta da PF. Segundo ele, a campanha recebeu ameaças do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho. Por razões compreensíveis, nenhum dos presidenciáveis fornece detalhe de seus aparatos. Lula, por estar no exercício da Presidência, tem em seu esquema de segurança dezenas de agentes da Polícia Federal e militares do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). Prestes a ser confirmado candidato do partido Novo, o ex-governador Romeu Zema, ao contrário, usa apenas alguns guarda-costas.
De todos os presidenciáveis, Ronaldo Caiado é o que contava com a maior estrutura de proteção pessoal. No início do mês, a Justiça de Goiás determinou a redução do efetivo de segurança do ex-governador de 51 para quatro policiais militares. O candidato do PSD reclamou da decisão, justificando que o combate a quadrilhas e facções durante seu governo impõem um risco pessoal muito grande. As queixas foram ouvidas. A partir de agosto, o ex-governador contará com o apoio federal, que disponibiliza aos políticos veículos blindados, equipamentos antidrone, monitoramento digital e apoio do esquadrão antibombas — serviços ativados de acordo com a necessidade.
O presidente da Associação Nacional dos Delegados da PF, Edvandir Paiva, ressalta que a escolta dos candidatos é uma missão complexa, até porque eles costumam não observar a maioria das regras. “Muitas vezes as recomendações da equipe são contra a exposição em certos locais. O perigo, às vezes, está aquém do crime organizado”, afirma. Os candidatos fazem bem em tomar medidas efetivas para reduzir riscos durante a campanha. Falta agora se aprofundarem em um debate mais sério sobre soluções para os graves problemas de segurança do país. Nesse campo, eles ainda estão devendo. Os eleitores certamente estarão atentos a esse “detalhe”.
Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005
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