Saúde
Os efeitos colaterais das canetas emagrecedoras no olfato e no paladar
Pesquisa aponta que usuários têm risco maior de perda ou distorção desses sentidos. Mas cabe contextualizar o impacto
VEJA / CARLOS EDUARDO BARRA COURI SEGUIR SEGUINDO
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Imagine sentir menos o cheiro do café pela manhã. Ou perceber que aquele prato favorito, de repente, tem um gosto estranho, quase irreconhecível. Para alguns usuários de medicamentos como Ozempic e Wegovy, isso pode não ser apenas imaginação.
Um novo estudo publicado na revista científica JAMA Otolaryngology — Head & Neck Surgery levanta uma bandeira amarela sobre um efeito colateral pouco falado dessas medicações, que se tornaram fenômenos globais no tratamento do diabetes e, mais recentemente, no tratamento da obesidade: elas parecem interferir na forma como sentimos cheiros e sabores.
Os agonistas do receptor GLP-1 já são famosos pelos efeitos colaterais mais conhecidos — náusea, refluxo, aquela sensação de estômago revirado. Mas pesquisadores do Hadassah Medical Center, ligado à Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel, resolveram investigar algo diferente baseados em algumas queixas de consultório: será que esses remédios também afetam os sentidos?
Para responder a essa pergunta, a equipe vasculhou prontuários eletrônicos de mais de 170 hospitais e sistemas de saúde ao redor do mundo, reunidos em uma gigantesca base de dados internacional. No total, quase 880 mil pessoas com diabetes tipo 2 entraram na análise — de um lado, quem usava agonistas do GLP-1; do outro, um grupo comparável de pacientes tratados com outros remédios para diabetes, como metformina e insulina.
Os dois grupos foram cuidadosamente equilibrados em idade, sexo e condições de saúde, para que a comparação fosse a mais justa possível.
Ao longo de até dois anos, quem usava agonistas do GLP-1 teve um risco quase 50% maior de desenvolver algum problema de olfato ou paladar, comparado a quem usava outros medicamentos para diabetes. Separando os dois sentidos, o impacto no olfato foi ainda mais chamativo, com risco cerca de 80% maior — enquanto o paladar teve um aumento de risco em torno de 50%.
Dentro dos problemas de olfato, um chamou especial atenção a parosmia, aquela distorção incômoda em que os cheiros passam a ser percebidos de forma alterada — às vezes até desagradável, mesmo vindo de algo que antes era neutro ou agradável. Foi o desfecho com o salto de risco mais expressivo entre todos os avaliados.
Antes de qualquer pânico, um detalhe importante: mesmo com esse aumento relativo, o problema continua sendo raro em números absolutos. Estamos falando de um acréscimo pequeno na proporção real de pessoas afetadas — o suficiente para acender um alerta científico, mas longe de significar que a maioria dos usuários vai perder o olfato ou o paladar.
Com milhões de pessoas ao redor do mundo usando esses medicamentos — seja para controlar o diabetes, seja para emagrecer — mesmo um efeito colateral raro pode acabar afetando um número relevante de gente. E olfato e paladar não são detalhes menores: eles estão ligados ao prazer de comer, à segurança (sentir um vazamento de gás, por exemplo) e até ao bem-estar emocional.
Os próprios pesquisadores fazem questão de dizer que descobriram uma pista. O estudo mostra uma associação, não uma prova definitiva de causa — os dados vieram de prontuários médicos, sem testes específicos de olfato e paladar, e não é possível saber ao certo se outros fatores influenciaram os resultados.
Ainda assim, tiramos uma lição: vale a pena médicos e pacientes ficarem atentos a esse sintoma, que costuma passar despercebido diante de queixas mais comuns, como enjoo e desconforto estomacal.
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