Política
Banco Master: partidos e políticos trocam farpas no rastro das revelações que ainda podem surgir
As confissões de Vorcaro devem alimentar e ampliar em muitos megatons alguns desses embates e criar outros com maior poder de destruição
VEJA
Em novembro do ano passado, a Polícia Federal realizou a primeira etapa de uma operação cujos efeitos ganharam proporção ruidosa — e cujo desfecho está ainda longe do horizonte. Em decorrência das investigações, o Banco Central anunciou a liquidação do Banco Master. Daniel Vorcaro, o dono da instituição, está preso e negocia um acordo de delação premiada. Já foram descobertas fraudes que deixaram no mercado um rombo superior a 50 bilhões de reais, em golpe financeiro inigualável. E ainda há muito a ser revelado. São inúmeras as pistas de que o império econômico do banqueiro foi construído à base de trapaças perpetradas a partir da cooptação de políticos influentes e autoridades contratadas a peso de ouro para prestar serviços ao banco — método que pode ter sido usado para ocultar pagamentos de propina. O caso Master, em função dessas suspeitas, vai pautar a campanha eleitoral em vários níveis, inclusive na disputa pela Presidência da República. O embate começou no domingo 26, com o primeiro ataque direto desferido durante o Congresso Nacional do PT.
Em um vídeo exibido durante o evento, os petistas associaram o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao escândalo. Candidato da oposição, o filho Zero Um do ex-presidente desponta como o principal adversário de Lula na campanha pela reeleição. Segundo as pesquisas, o parlamentar está tecnicamente empatado com o petista em simulações de segundo turno. A peça publicitária petista chama o senador de “filho mais corrupto de Bolsonaro” e insinua que ele comprou uma mansão em Brasília com recursos oriundos do esquema do Master. O vídeo destaca também que Fabiano Zettel, cunhado e sócio de Vorcaro, doou recursos para a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022. “Vamos colocar as cartas na mesa. Daniel Vorcaro foi autorizado a operar o Banco Master em 2019, pelo governo Bolsonaro. Fabiano Zettel entregou 5 milhões para as campanhas de Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. Entendeu o esquema? O Banco Master é ‘bolsomaster’”, conclui um narrador. Antes de ser apresentado oficialmente, o vídeo produzido pelo marqueteiro da campanha de Lula já havia circulado entre alguns políticos governistas, particularmente de São Paulo, onde o caso também será usado como arma na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes.
O PT pretende realçar o fato de o governador Tarcísio de Freitas, que concorre à reeleição, ter recebido na campanha uma doação de 2 milhões de reais do cunhado de Vorcaro. Estrategistas da campanha de Fernando Haddad, o candidato petista ao governo paulista, confidenciaram que, em breve, divulgarão um segundo vídeo no qual o ex-ministro da Fazenda contará bastidores do que viu em relação ao caso Master enquanto esteve em Brasília. “A tentativa de inverter responsabilidades não resiste a uma análise séria e não enganará a sociedade brasileira”, rebateu Flávio Bolsonaro, antes de o partido dele contra-atacar, apontando, também em um vídeo, Rui Costa, ex-governador da Bahia e ex-ministro de Lula, como autor de medidas que ajudaram a construir a pirâmide de fraudes do banco. A peça também destaca que Guido Mantega, ex-ministro de gestões petistas, estava até recentemente na folha de pagamento do Master e, nessa condição, levou o banqueiro ao Palácio do Planalto para uma audiência fora da agenda com o presidente da República. “Eles (os petistas) tentam embaralhar as cartas para esconder quem realmente está comandando esse baralho”, diz o narrador oposicionista. Essa conexão com a Bahia, em tese, encaminhará o caso automaticamente a outro ringue.
As pesquisas mostram que a disputa pelo Palácio de Ondina deve se dar entre o governador Jerônimo Rodrigues (PT) e o ex-prefeito ACM Neto (União Brasil). Se depender de ambos, no entanto, o Master não será assunto da campanha eleitoral baiana — e não é porque os candidatos consideram outros temas mais relevantes. O fato é que os dois avaliam que só têm a perder se houver um embate direto sobre o escândalo. Rodrigues sucedeu a Rui Costa no governo. Se partir para o confronto sobre o caso, chamará para si a responsabilidade de explicar medidas que são de responsabilidade exclusiva de seu padrinho político. Além disso, certamente também seria instado a explicar a situação de outro aliado importante, o senador Jaques Wagner (PT-BA). A mulher de um enteado do parlamentar foi sócia de uma empresa que recebeu 11 milhões de reais do Master. Do outro lado, as investigações mostraram que ACM Neto tinha contrato de consultoria com as empresas de Daniel Vorcaro. O ex-prefeito recebeu 3,6 milhões de reais pelos serviços. Procurados, eles não quiseram se pronunciar. Há um acordo tácito entre as campanhas para que o assunto permaneça em estado de hibernação.
Em Alagoas, ao contrário, os ânimos prometem exaltar-se com a aproximação das eleições. O caso Master movimenta o corner de dois caciques do estado. O senador Renan Calheiros (MDB) e o deputado Arthur Lira (PP), adversários viscerais, vão disputar em outubro uma cadeira no Senado. Já se sabe que Daniel Vorcaro mantinha relações de amizade com políticos de vários partidos, particularmente do PP. No início do ano, numa manobra até hoje não muito bem explicada, repleta de dúvidas, o Tribunal de Contas da União (TCU) tentou interferir no processo de liquidação do Master. Calheiros acusou Lira de pressionar o ministro Jhonatan de Jesus, relator do caso, com o objetivo de ajudar o banqueiro preso. O senador também insinua com frequência que o deputado é responsável por um prejuízo aos cofres do Instituto de Previdência dos Servidores de Maceió, que comprou 100 milhões de reais em títulos podres do Master. Os dois candidatos foram procurados, mas também preferiram ficar calados.
As confissões de Vorcaro devem alimentar e ampliar em muitos megatons alguns desses embates políticos e criar outros com maior poder de destruição. A expectativa é que o banqueiro revele nomes de políticos e autoridades que ajudaram a construir seu império, políticos e autoridades que se empenharam em tentar impedir que o império ruísse e, o mais importante, o que receberam em troca. A suspeita da Polícia Federal é que o Master tenha usado a influência de certos personagens, alguns devidamente remunerados, para abrir as portas dos gabinetes de Brasília. O Master investia fortunas em contratos de prestação de serviços, festas e viagens para ter esse privilégio. Na teia de relações do empresário estão deputados, senadores, governadores, ex-governadores, ministros, ex-ministros, magistrados, servidores públicos de alto escalão e ex-presidentes da República. Dependendo das histórias que o banqueiro contar — e puder comprovar —, sua colaboração será naturalmente explosiva.
Na semana passada, Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), pediu ao Supremo Tribunal Federal transferência do presídio da Papuda para o setor de carceragem da Polícia Federal. Suspeito de receber propina para, entre outras atividades, viabilizar a compra de bilhões de reais em títulos podres do Master, o ex-presidente do BRB também negocia um acordo de colaboração. Antes de sua prisão, Costa fez um relato estarrecedor sobre as pressões que teria recebido para concretizar a transação fraudulenta — pressões, segundo ele confidenciou a um amigo, de políticos influentes e até de uma autoridade do Judiciário. Não se sabe se essa história está listada entre as revelações que o ex-presidente do BRB pretende fazer, nem mesmo se ela é real ou um blefe para eventualmente desviar o foco das investigações. Se for verdadeira, caberá ao delator apresentar provas irrefutáveis das acusações. Se apresentar, o octógono do Master ganhará novos, surpreendentes e incômodos capítulos.
Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993
COMENTÁRIOS
