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O mito de Che Guevara em Mato Grosso do Sul: entre história e imaginação popular
Apesar da ausência de registros oficiais, lendas sobre a passagem do revolucionário argentino pelo Estado continuam vivas alimentadas pela música, pela memória coletiva e pelo desejo de fazer parte da história latino-americana.
CVNEWS/BATANEWS/REDAçãO
No imaginário popular sul-mato-grossense, o guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara teria se hospedado no antigo Hotel Gaspar, em Campo Grande, e fugido pela ferrovia do Trem do Pantanal rumo à Bolívia. A história, contada por gerações, mistura aventura, política e mistério — mas, segundo historiadores, não há qualquer registro oficial de que o líder da Revolução Cubana tenha passado por Mato Grosso do Sul.
A única conexão comprovada de Che com o Estado é indireta. Em 19 de agosto de 1961, já como ministro da Indústria de Cuba, ele visitou o Brasil e recebeu das mãos do então presidente Jânio Quadros — natural de Campo Grande — a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, a mais alta condecoração brasileira oferecida a estrangeiros. A cerimônia ocorreu no Palácio do Planalto, em Brasília.
“O Exército boliviano matou o homem, mas, ironicamente, deu vida ao símbolo”, comenta o historiador Marcelo Piccolli, lembrando que a execução de Che, em 9 de outubro de 1967, na Bolívia, transformou o guerrilheiro em um mito global.
Mesmo sem provas documentais, as histórias persistem. A atual proprietária do antigo Hotel Gaspar admite não ter certeza se Che realmente esteve ali. “O homem até pode ter dormido ali, mas isso é algo que ninguém garante”, brinca.
A música “Trem do Pantanal”, de Geraldo Roca, também contribuiu para manter vivo o mito. Muitos acreditam que a canção faz referência ao revolucionário argentino, mas o próprio compositor negou essa ligação em entrevistas. Ainda assim, a letra acabou associada à figura de um jovem idealista que parte em busca da liberdade — um retrato que se encaixa perfeitamente no imaginário construído em torno de Che.
“Durante a ditadura militar, era comum que militantes comunistas fugissem para a Bolívia por meio da ferrovia da Noroeste do Brasil”, explica Piccolli. “Essa rota real acabou reforçando o mito da fuga de Che pelo Pantanal.”
O professor Valdery Ferreira Zotelli acrescenta que o contexto político da década de 1960 — marcado pela “caça às bruxas” anticomunista — ajudou a amplificar os rumores. “Che era o símbolo máximo da resistência revolucionária. Sua fama se misturou ao medo e à admiração que o nome despertava”, afirma.
Já a professora Sophia Fontana lembra que, de acordo com as pesquisas acadêmicas, não há comprovação científica de que Che tenha passado por Mato Grosso do Sul. “Há muitos boatos, especialmente em cidades fronteiriças como Corumbá, mas nenhum documento oficial confirma essa presença”, observa.
Che Guevara foi executado pelo Exército boliviano, com apoio da CIA, em 1967, após tentar expandir a revolução para outros países da América do Sul. A morte do homem deu origem à lenda — e, no caso de Mato Grosso do Sul, essa lenda sobrevive no cruzamento entre história, música e identidade regional.
No fim das contas, a presença de Che em terras sul-mato-grossenses é mais simbólica do que real. Um mito que continua a viajar pelos trilhos do Pantanal, embalado pela nostalgia, pela curiosidade e pela eterna busca por liberdade.
*Contribuição CGNews
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