Suicídio entre cristãos: pastor Hernandes Dias defende diálogo, prevenção e atenção pastoral

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O tema do suicídio entre cristãos tem sido motivo de debates e reflexões no meio evangélico. A Bíblia afirma no sexto mandamento, registrado em Êxodo 20.13, que “Não matarás”, proibindo o homicídio, o suicídio e outros pecados ligados à violência. Esse mandamento reforça a verdade de que a vida é sagrada e pertence exclusivamente a Deus, cabendo a Ele determinar o início e o fim da existência humana.

As Escrituras relatam seis episódios de pessoas que tiraram a própria vida: Abimeleque (Juízes 9.54), Saul (1 Samuel 31.4), o escudeiro de Saul (1 Samuel 31.4-6), Aitofel (2 Samuel 17.23), Zinri (1 Reis 16.18) e Judas Iscariotes (Mateus 27.5). Esses registros bíblicos não apenas descrevem os fatos, mas também servem de alerta quanto às consequências de decisões tomadas em momentos de desespero.

Diante do questionamento sobre o destino eterno de quem comete suicídio, o reverendo Hernandes Dias Lopes, pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória e auxiliar na Igreja Presbiteriana de Pinheiros, ofereceu uma reflexão em entrevista. Autor do livro Não desista de você: Viva uma vida que faça sentido, Hernandes destacou que há muitos mitos e concepções equivocadas sobre o tema. Ele frisou que a abordagem bíblica deve sempre caminhar ao lado da prevenção, já que, segundo suas palavras, “a maioria das pessoas que atentam contra a própria vida dão sinais antes”.

Assim, o pastor apontou a necessidade de atenção pastoral e comunitária, lembrando que a fé cristã proclama esperança em Cristo e chama os crentes a cuidarem uns dos outros. A seguir, a entrevista concedida à Comunhão, na íntegra.

Suicídio ainda é tabu? Sim, pois ele ainda não é tratado como deveria ser, ou seja, com transparência, e é exatamente por isso que se constitui em um risco tão grande para a sociedade. É claro que já estamos avançando, pois em alguns países o tema vem sendo tratado de forma preventiva, mas no Brasil ainda temos uma estatística maquiada e constrangimentos para tratar do assunto na mídia. O próprio Governo precisa encarar isso como um problema social e enfrentá-lo sem máscaras. Estou certo de que ainda temos um longo caminho pela frente; quanto mais se falar sobre o assunto, melhor.

Quem tenta o suicídio sempre tem algum distúrbio mental? Duas escolas tratam dessa matéria: a sociológica e a psiquiátrica. A escola sociológica acredita que não. E eu também penso assim! Nós não podemos afirmar, por exemplo, que Getúlio Vargas tinha distúrbio mental. É possível que a pessoa tenha plena saúde mental, mas em determinado momento da vida sofra determinadas pressões ou seja acometida por doenças de outra ordem para que venha a cometer suicídio. As causas são várias: depressão e isolamento, bipolaridade, perda de um relacionamento significativo, sentimentos passionais, violência doméstica, drogas, motivações de cunho religioso, entre outras. Por essa razão, não podemos concluir que todas as pessoas que cometem suicídio têm distúrbios mentais.

Quem pretende se matar dá sinais? É provado estatisticamente que mais de 80% das pessoas que cometem suicídios deram claros sinais de que iriam fazê-lo. Isso quebra o mito de que “quem fala em suicídio não se mata”. A verdade é o contrário. Os sinais precisam ser encarados como gritos de socorro. Precisamos estar atentos às pessoas que deixam pistas em suas falas — por exemplo, “Não aguento mais”, “Minha vida está sem sentido”, “Eu queria morrer” — ou em seus comportamentos, como tomar uma dose exagerada de remédios, provocar cortes nos pulsos ou outros ferimentos. Há pessoas que flertam com a janela ou demonstram desinteresse pela vida. Tudo isso são sinais que podem ser monitorados.

A depressão continua sendo a principal motivação para o suicídio? Ainda hoje a depressão é tratada como a principal causa do suicídio, mas, no meio evangélico, o tema é muito mal interpretado. Há dois extremos: um, defendido por autores como T. L. Osborn, que tratam a depressão como “demônio”; outro, por linhas conservadoras como as de Jay Adams, que afirmam que depressão não é doença, mas pecado. Aqueles que subscrevem essas ideias acham que a cura é só pela Palavra e não aceitam que a depressão seja uma doença, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS) entende. A depressão é uma doença e precisa ser tratada como tal — com medicamentos, terapia e fé. É verdade que uma das causas da depressão pode estar relacionada a problemas espirituais, como Davi retrata nos Salmos 32 e 51. Mas um crente cheio do Espírito Santo também pode ficar deprimido, assim como pode ter um problema renal, câncer ou outras doenças.

Após a suspeita ou confirmação de pensamentos suicidas, como família e amigos devem proceder? Primeiro, investigar as causas: é depressão? Crise financeira? Dependência química? Rompimento de relacionamento? Ao identificar a causa, devem-se tomar ações imediatas: encaminhamento ao psiquiatra, terapia, uso de medicamentos. A medicina é uma bênção de Deus, mas só isso não basta. A pessoa também precisa cuidar da alma, buscando fé e esperança. A depressão tem cura — Deus restaura a alma (Sl 42:27) — e é cíclica: tem começo, meio e fim.

Crise financeira e desemprego aumentam os casos? Como a Igreja pode ajudar? Via de regra, as pessoas mais carentes já lidam com crises e dificuldades; os mais afetados são frequentemente os que viviam no luxo e perdem tudo de repente. O desemprego acelera sentimentos de angústia e vergonha. A Igreja tem papel importante: pregar a Palavra, reforçando que a provisão vem de Deus, e ajudar nas necessidades urgentes. No meio cristão, todos têm de se ajudar.

O suicídio pode separar um cristão do amor de Deus? A Bíblia nos ensina que nada pode separar um cristão do amor de Deus. O suicídio é um atentado contra a autoridade de Deus — é usurpar um direito que só pertence ao Pai — e é um ato egoísta, pois pertencemos a família e à igreja. No entanto, afirmar que todo suicida vai para o inferno não tem base bíblica. A tese de que todo suicida é um Judas Iscariotes é falsa; Judas não foi para o céu porque não era convertido. Muitos que cometeram suicídio viviam no pecado; o ato não foi necessariamente a causa última da condenação, mas consequência de um quadro moral ou mental. Há denominações que creem na segurança eterna (“uma vez salvo, salvo para sempre”); outras não. Nós não temos competência para julgar a eternidade de ninguém — só Deus conhece o coração.

Como avalia iniciativas como “Setembro Amarelo” e o CVV? São iniciativas louváveis. A Igreja precisa usar o púlpito e a Escola Bíblica para conscientizar e aconselhar, e outras instituições devem promover debates para desmistificar e ajudar. Se a grande mídia não aborda o tema com responsabilidade e camufla os fatos, fica mais difícil agir preventivamente. Esconder os números não é saudável nem eficaz; ignorar sinais é um erro fatal.

Considerações finais Se você está sofrendo com algum drama pessoal ou está desencantado com a vida, saiba que há esperança no amor de Deus e na família. Existem recursos legítimos para sair dessa fase e que devem ser usados como bênção da providência de Deus. Valorize relacionamentos saudáveis, busque ajuda, rompa o silêncio e aceite ser tratado com a graça de Deus.

Fonte: entrevista com Hernandes Dias Lopes — via GospelPrime.



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