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Prefeito encerra mandato em Alagoas e retoma carreira no futebol gaúcho com gol; conheça
Alysson Sardinha teve carreira profissional, entrou na política "sem querer", mas decidiu voltar a jogar após fim do mandato em time da segunda divisão do Campeonato Gaúcho
GLOBOESPORTE.COM / GABRIEL GIRARDON E BRUNO HALPERN
É provável que o roteiro da vida de Alysson Reis Sardinha, 36 anos, seja inédito no futebol brasileiro. Inclusive Roteiro, esse com letra maiúscula, está diretamente ligado ao hoje jogador do Real Sport Club, time da cidade litorânea de Tramandaí que disputa a segunda divisão do Campeonato Gaúcho.
Roteiro é o nome de um município no estado de Alagoas, onde Sardinha foi prefeito de 2020 a 2024. Após iniciar carreira profissional no futebol, entrou para a política um tanto "sem querer", mas assim que terminou o mandato voltou a alimentar o sonho de calçar chuteiras para uma "última dança".
O caso de Sardinha chamou mais atenção no último fim de semana, quando o meio-campista do Real saiu do banco e marcou o único gol da derrota por 2 a 1 para o Esportivo, pela 7ª rodada da Série A2, o segundo escalão do futebol gaúcho. A história do ex-prefeito veio à tona.
Natural de São Luís do Maranhão, Alysson Sardinha nutria o sonho de ser jogador de futebol como toda criança. Em idas ao estádio Nhozinho Santos, dizia ao pai, José Maria (seu Zé), que um dia o veria jogar. Algo que, de fato, aconteceu anos depois em sua cidade natal. O início, porém, foi no sul do Brasil.
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Ainda adolescente, Sardinha disputou um torneio de base em São Paulo e descobriu um clube de formação de atletas no Rio Grande do Sul. Na época, chamado CTC Facos, da cidade de Osório, também no litoral gaúcho, que antecedeu o Real, uma equipe profissionalizada em 2016.
Exatamente por não haver chance de se profissionalizar, Sardinha precisou deixar o clube após três anos de base. A oportunidade viria em casa, no Sampaio Corrêa, em 2009, já passado dos 20 anos. Primeiramente, integrou um time sub-23, mas logo conseguiu estrear pelo principal.
No seu primeiro jogo, o pai não pode ir ao estádio por causa do trabalho, mas outros familiares estavam presentes no Nhozinho Santos. Sardinha começou no banco e sequer pensou que pudesse entrar em campo, mas recebeu chance do técnico Edson Porto, de larga carreira também no futebol gaúcho.
– Eu estava muito feliz só de estar ali. Lembro que minha chuteira até desamarrada estava. Entrei com 31 minutos do segundo tempo. A primeira bola que recebi já para chutar fiz o gol – conta Sardinha.
A carreira futebolística de Alysson Sardinha duraria mais alguns anos. O meio-campista passou por outros times do Maranhão, uma temporada na Bolívia e, por último, no Atalaia, de Alagoas, em 2012. Foi neste estado, aliás, que o então jogador passou a mudar de ramo.
Ex-jogador político
A grande mudança na vida de Sardinha teve um principal responsável: o tio Wladimir Brito. Em 2012, ele foi eleito prefeito de Roteiro, cidade de cerca de 6,7 mil habitantes a pouco mais de 50 quilômetros de Maceió. Na ocasião, o ainda jogador de futebol recebeu um convite para trabalhar com o tio.
Em um primeiro momento, o sonho de seguir jogando parecia falar mais alto, mas a incerteza sobre o futuro na carreira, na época sem contrato com algum clube, o fez repensar. A perspectiva de um futuro melhor, de ajudar o tio e também ter uma formação, gerou a mudança.
– No programa da Fátima Bernardes, estava passando a vida de jogadores andarilhos, que rodam o mundo e não conseguem montar um pé de meia. Eu me vi naquilo. Tenho dois irmãos formados. Eu me via parado um tempo naquela situação – revelou.
Assim, Sardinha deixou o futebol de lado (ao menos naquele momento) e focou em trabalhar com o tio prefeito em Roteiro. Aproveitou para começar a cursar Engenharia Civil em Maceió. Tudo isso, porém, sem pensar em virar político propriamente. Mas os planos mudaram.
Também a pedido de Wladimir Brito, o agora ex-jogador lançaria candidatura a vereador em 2016. No entanto, um ano antes, o tio mudou de ideia e o convenceu a ser vice-prefeito na chapa que tentaria a reeleição. Deu certo, e agora Sardinha estava de vez envolvido na política.
Durante o período como vice, Sardinha foi também secretário de Esporte e chegou a firmar parceria com o Real, no intuito de oportunizar jovens de Roteiro a possibilidade de seguir caminho no futebol gaúcho. Na ocasião, esteve ao lado de Eduardo Sena, presidente do clube, e o filho Fernando, que trabalha como diretor.
Já em 2020, Sardinha se candidatou a prefeito para suceder o tio. Na reta final da campanha, porém, um fato abalou o então vice. Wladimir Brito sofreu um acidente de moto e faleceu dias antes do pleito. Eleito com mais de 60% dos votos, o futuro prefeito terminou o ano já no cargo, pois precisou assumir com a morte do tio.
– Foi onde eu abracei mais ainda essa causa porque eu sabia que era um desejo dele também, de me ver prefeito, de dar continuidade ao trabalho dele, mesmo diante de várias dificuldades que eu peguei na pandemia. Fiquei 12 anos nessa trajetória – ressaltou.
Ex-político jogador
Por ter assumido a prefeitura de Roteiro ainda em 2020 e eleito logo em seguida, o pleito contou como reeleição de Sardinha. Desta forma, o término do mandato em 2024 significou também o fim de sua vida pública. Sem o tio, a quem denominou "família na política", continuar essa carreira já não fazia sentido.
A virada para este ano foi também uma nova virada de chave para Alysson Sardinha. Os trajes sociais do então prefeito voltaram a dar lugar aos calções, meiões e chuteiras. Era o sonho de uma última chance no futebol, mais de 12 anos depois, por gratidão aos pais e poder entrar em campo com o filho Arthur, de três anos.
A oportunidade viria no lugar onde tudo começou. Sardinha fez contato com a família Sena, dona do Real. O time de Tramandaí conquistou vaga na Série A2 do Gauchão no ano passado, ao ser vice-campeão da Série B, o terceiro nível do futebol local. O pedido foi aceito, embora tivesse muito trabalho pela frente.
– Eu me apresentei com 105 quilos. Lembro que eu não conseguia fazer um trabalho com bola. Cansado, pesado. Eu sabia que a minha batalha primeiro ia ser comigo mesmo. Eu vendo os meninos em atividade, vindo de outros clubes, estava muito abaixo de todo mundo – destacou.
Sardinha hoje pesa 88 quilos. Ou seja, perdeu 17 para estar em melhor condição física e entrar em campo. A primeira vez foi no dia 28 de maio, nos minutos finais contra o Bagé, em casa. Até o momento foram quatro partidas, com o gol marcado no último sábado.
– Isso retrata uma resiliência, força de vontade. É o querer, mostrar que nunca é tarde. Esse gol tem suma importância, porque ele (o pai) viu o quanto o filho dele é mais guerreiro e pode retomar aos 36 anos – contou Sardinha, brincando em como seu Zé o achou magro ao ver o gol pela internet.
O desempenho da equipe em campo não tem sido satisfatório, visto que perdeu os sete jogos e está na lanterna da Série A2. Mesmo assim, a realização do sonho de voltar a jogar para, enfim, pendurar as chuteiras, é o que mais vale para Alysson Sardinha. Embora ainda não pense tanto no futuro.
– Eu quero viver cada momento dentro de campo, nos jogos. O futuro a Deus pertence. Quem sabe Ele tem algo para mim aí, não podemos duvidar nada. O meu pensamento é esse, poder jogar, ajudar o clube a sair também dessa situação, e deixar na mão de Deus – afirmou.
De fato, Alysson Sardinha desfruta ao máximo o momento ao lado do filho e da esposa, Adélia. O roteiro (substantivo) que ele tanto desejava foi conquistado, após iniciar como jogador, passar como político em Roteiro (município) e retomar a carreira para os últimos passos (ou gols) na vida no futebol.