Esportes
Mansur: Vini merecia Bola de Ouro, mas Brasil não precisa ser obsessivo com prêmios individuais
BATANEWS/BATANEWS/REDAçãO GE
As chances de o Brasil romper seu jejum de títulos mundiais e ganhar a Copa de 2026 não se tornam menores porque parte de um grupo de 100 jornalistas decidiu que Vinicius Junior não foi o melhor jogador da temporada. Há um tempo, vivemos uma obsessão nacional com a reconquista do prêmio, uma ansiedade que corre em paralelo com as frustrações em Mundiais. Como se o troféu individual fosse a premissa para a conquista coletiva, que só virá com um projeto competitivo de seleção, o que obviamente inclui Vinicius.
Claro que ter o melhor jogador do mundo é um bom sinal para um país que almeja reencontrar os grandes triunfos. Mas há momentos em que prêmios desta natureza parecem distrações, um produto comercial que seduz o público nesta era de culto a personalidades, uma escolha sujeita a subjetividades e razões das mais diversas.
Vinícius não venceu a Bola de Ouro como merecia, mas seu lugar na elite do jogo está conquistado há algumas temporadas. E é simbólico que, até poucas horas antes da cerimônia, fosse visto como favorito. Afinal, acabamos de sair de uma semana especialmente útil para que o catastrofismo brasileiro, este evento que nos assola nos períodos de seca de conquistas mundiais, seja questionado.
Há cinco dias, terminava uma rodada de Liga dos Campeões que teve, nos seus 18 jogos, 22 jogadores brasileiros titulares, dois deles os principais destaques: foram três gols de Vinícius contra o Borussia Dortmund, e os mesmos três gols de Raphinha sobre o Bayern de Munique. A ponto de transformar o Real Madrid x Barcelona do último sábado num encontro que tinha os atacantes brasileiros como duas das principais atrações. O decreto de falência do futebol nacional não se sustenta, e Vinicius é um dos melhores argumentos contra a melancolia.
Há muitos motivos para entender que o atacante brasileiro merecia o prêmio entregue em Paris nesta segunda-feira. E eles vão além dos 24 gols na última temporada, ou de sua transformação também num preparador de jogadas, etapa mais recente da contínua ampliação de seu repertório. Tampouco se resumem à importância dos gols que marcou na reta final da Liga dos Campeões. Aos 24 anos, o jovem brasileiro foi, na fase decisiva das principais competições, o jogador mais importante de um clube capaz de montar um elenco repleto de estrelas internacionais em praticamente todas as posições do campo.
A escolha por Rodri, um desses meio-campistas de exceção, capazes de dominar o centro do campo, controlar jogos, surgir na área rival para decidir partidas, não representa uma aberração. Mas não foi esta a sua melhor temporada no City: o espanhol não foi o melhor jogador de seu clube, campeão inglês novamente, nem da seleção campeã europeia. Vinicius merecia mais.
Para que se tenha noção do status que atingiu no melhor clube do mundo, o brasileiro impôs com seu jogo que Ancelotti montasse um time em torno de sua influência, enquanto rivais passaram a alterar escalações para lidar com sua explosão rumo ao gol. Ele foi o destaque da última temporada europeia, mas fez algo além de jogar futebol melhor do que os demais.
Há alguns anos, Vinícius oferece ao futebol e à sociedade algo que raros jogadores fizeram na história. Tão jovem, é capaz de combinar o brilho em campo com mensagens preciosas contra o racismo. Ousou desafiar o privilégio branco, incomodou, suportou ataques cada vez mais cruéis e violentos, transformado em alvo justamente por não aceitar a lógica de que um jovem preto, estrangeiro, deveria se calar. Virou um símbolo, inspiração para tanta gente que luta contra a exclusão.
Não é possível atribuir à luta de Vinicius sua derrota na premiação, o que implicaria em chamar de racistas muitos dos jornalistas que compuseram o colégio eleitoral. O que é possível, isto sim, é refletir se o título europeu da Espanha fez de Rodri um nome conveniente para ser encampado pela parte da Europa que enxergava em Vinicius uma ameaça, dando início a uma campanha aberta pela eleição do volante do Manchester City.
Vinicius está na elite do jogo, e o futebol brasileiro não precisa fazer da Bola de Ouro um novo motivo de sofrimento. Há uma seleção competitiva por formar, e uma das primeiras tarefas é criar o melhor contexto para o astro do Real Madrid.
COMENTÁRIOS
