Esportes
Palco do último jogo do Brasil no PR agoniza à espera de demolição
O ge mostra como está o Pinheirão no terreno de 124 mil metros quadrados leiloado em 2012
BATANEWS/REDAçãO
Os resquícios de um estádio castigado pelo tempo. O Complexo Esportivo do Pinheirão, palco emblemático do futebol paranaense e que recebeu o último jogo da seleção brasileira em Curitiba, em 2003, vive em ruínas há 17 anos.
Fechado em maio de 2007 por causa de dívidas da Federação Paranaense de Futebol, o Pinheirão está em um terreno de 124 mil metros quadrados que foi leiloado em 2012, mas desde o fim da primeira fase do Paranaense de 2007 nunca mais sediou jogos de futebol.
Os únicos eventos esportivos que aconteceram ali de lá para cá foram em um outro campo, no mesmo terreno, aos fundos do estádio, no Croco Stadium - casa do Coritiba Crocodiles, equipe de futebol americano de Curitiba que paga um valor simbólico ao proprietário.
O ge foi ao estádio em três ocasiões em 2024 e mostra que o que sobrou daquele Pinheirão são ruínas. Veja mais fotos da situação atual ao fim da reportagem.
Cadeiras nas cores do Paraná Clube ainda dão cor à arquibancada geral, enquanto a arquibancada coberta praticamente não tem mais cobertura. As telhas estão quebradas e os assentos foram depredados.
O gramado é aparado de tempos em tempos, mas o mato cresce até no meio do concreto. A trave está pela metade, na companhia apenas de quero-queros, enquanto as pombas fazem morada no que sobrou do placar, que ainda estampa o antigo logotipo da RPC, maior grupo de comunicação do Paraná.
Do lado de fora, os mosaicos desenhados por crianças em um concurso de estudantes da rede pública e inaugurados por ocasião do jogo entre Brasil e Uruguai, em 2003, chamam atenção no primeiro contato visual com o estádio. Esses painéis da fachada agora estão rodeados por pichações.
As paredes também guardam a assinatura da Federação Paranaense de Futebol ao lado de janelas quebradas e ferros enferrujados. A torre de iluminação sobreviveu ao tempo, mas não funciona, porque toda a fiação foi arrebentada. Também não existe mais estrutura de encanamento.
O vigilante que cuida do Pinheirão há dez anos fica a maior parte do tempo em uma cadeira, do lado de fora do estádio. Os corredores e salões estão abandonados - foram vítimas do tempo e da invasão de pessoas e animais.
A condição da rua Diógenes Ridley Raciop, ocupada por parte da arquibancada do Pinheirão, também reflete o estado do estádio. Em 2021, um processo movido pela Prefeitura de Curitiba acusou o proprietário do terreno de uso indevido de espaço público porque áreas públicas estariam obstruídas por estruturas do Pinheirão.
Com a arquibancada a ponto de demolição e tantas estruturas comprometidas, o retorno do Pinheirão como palco de futebol está praticamente descartado. Segundo João Carlos Destro, filho do proprietário do terreno, João Destro, o investimento seria muito alto para revitalizar o estádio.
Quanto vale?
Em 2012, o terreno onde está o Pinheirão foi leiloado por R$ 57,5 milhões, com lance inicial estipulado em R$ 69 milhões que depois baixou para R$ 35 milhões. O investimento do empresário João Destro, um gaúcho radicado em Cascavel que atua no setor atacadista, pôs fim às dívidas da Federação Paranaense de Futebol (FPF) com a Receita Federal, INSS, Athletico e credores.
O imóvel sempre foi visto como um investimento a longo prazo, e se valorizou nos últimos anos, especialmente pela construção de um shopping em frente ao terreno. O estudo volumétrico comprova o potencial imobiliário.
Desde 2007 João Destro paga IPTU, segurança e limpeza, e pouco arrecada com o campo dos fundos e com o aluguel do pátio como estacionamento ou eventos automobilísticos e circenses. João, hoje com 78 anos, se diz orgulhoso por ser dono do imóvel, e guarda apego pelo estádio apesar de nunca terem conseguido utilizá-lo com público.
Recentemente, a família de João Destro chegou a fazer três orçamentos para demolição, mas o valor ficou acima de R$ 3 milhões. Eles também fizeram um estudo mediado pela empresa Seven Eventos para utilizar o espaço para shows, mas o orçamento da reforma ficou em mais de R$ 20 milhões.
À espera de um parceiro para fazer um grande empreendimento, o proprietário optou por deixar o lugar como está. Não há nada engatilhado para o terreno.
O Pinheirão é um gigante abandonado, mas nunca esquecido. As histórias vividas em pelo menos quatro décadas de futebol paranaense ainda estão vivas na memória de milhares de torcedores que viram passar por ali os três times da capital, a seleção brasileira em quatro oportunidades, e astros da música nacional e até internacional.
"Maracanã curitibano"
O Pinheirão foi idealizado por José Milani, presidente da Federação Paranaense de Futebol na década de 60. A ideia era criar uma espécie de Maracanã curitibano, que tivesse capacidade para 120 mil torcedores.
Inaugurado em junho de 1985 com um amistoso entre as seleções do Paraná e de Santa Catarina, o Pinheirão virou realidade com capacidade para cerca de 50 mil pessoas e, em 22 anos de história, recebeu quatro jogos da Seleção Brasileira masculina principal, o último deles em 2003.
Em 1986, a seleção tinha se despedido do Brasil rumo à Copa do Mundo no México com um amistoso contra o Chile no Pinheirão. No mesmo ano, o Athletico adotou o estádio do bairro Tarumã como casa até 1992.
Em 1991, o Brasil enfrentou a seleção da Argentina no Pinheirão, em um amistoso que terminou em 1 a 1. Taffarel, Renato Gaúcho, Bebeto e Cafu passaram por Curitiba naquele ano. Em 1996, o Brasil voltou a jogar no Pinheirão contra a seleção de Camarões . O amistoso terminou em 2 a 0 e ficou marcado pela estreia de Oséas, que jogava no Athletico.
Em 1997 o Athletico teve que voltar ao Pinheirão enquanto a Arena da Baixada era construída. O recorde de público do Pinheirão foi na final do Campeonato Paranaense de 1998 , quando 44.475 pagantes viram o Athletico ganhar do Coritiba por 2 a 1 e ser campeão.
No ano seguinte, em 1999, foi a vez do Coritiba ser campeão paranaense após um jejum de 10 anos sem títulos. O jogo, no Pinheirão, terminou em um empate heroico contra um bom time do Paraná Clube de Abel Braga.
No final da década de 90 o Pinheirão virou casa do Paraná Clube. O estádio passou por uma série de reformas e as arquibancadas ganharam as cores do Tricolor. Depois de nove anos de domínio da dupla Athletiba, a equipe tricolor garantiria ali o título estadual de 2006 no Pinheirão lotado.
A última vez que o Brasil jogou no Paraná foi em 2003, no Pinheirão, quando empatou com o Uruguai , no primeiro jogo no país pelas Eliminatórias da Copa de 2006. Os gols foram de Kaká e de Ronaldo, duas vezes. A seleção volta ao estado do Paraná agora, em 2024, após 21 anos. Dessa vez, a partida será no Couto Pereira, casa do Coritiba.
Já o último jogo da história do Pinheirão foi a vitória do Cianorte por 2 a 1 contra o JMalucelli, pela última rodada da primeira fase do Paranaense de 2007. Depois daquele jogo, a única esperança de continuidade do lugar como palco de futebol estava em cima da escolha do Pinheirão como uma das sedes da Copa do Mundo de 2014, mas o plano fracassou.
Em 2016, o Coritiba cogitou erguer no local o novo estádio do clube , mas as negociações também não decolaram.
Entregue ao acaso, o estádio Pinheirão, que representou o sonho de transformar Curitiba em uma potência do futebol nacional, tornou-se um elefante branco à espera de algum rumo.
Veja mais imagens de como está o Pinheirão atualmente:
Mais notícias do esporte paranaense em ge.globo/pr
COMENTÁRIOS
