Da roça ao Direito: a trajetória de Adilson Ramelli, marcada pela luta dos trabalhadores e pela reforma agrária

Ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Nova Andradina, protagonista de importantes mobilizações pela reforma agrária e hoje advogado, Adilson construiu uma história que começou no campo e nunca se afastou das causas dos mais humildes.

BATANEWS/POR NEY OLEGáRIO


Foto: Divulgação

A história de Adilson Ramelli, identificado em parte dos jornais da época como Adilson Remelli, pode ser contada por meio de uma palavra que atravessa toda a sua trajetória, luta.

Antes de se tornar advogado, antes de ocupar espaços de representação sindical e antes de ter seu nome estampado nas páginas dos jornais de Mato Grosso do Sul durante alguns dos mais intensos conflitos agrários da região, ele era simplesmente um menino nascido e criado na roça.

Foi dessa origem que vieram os valores que conduziriam toda a sua vida, o trabalho, a simplicidade, a honestidade e a compreensão profunda das dificuldades enfrentadas pelo homem e pela mulher do campo.

Em dezembro de 1991, sua vida tomaria um novo rumo. Ele foi eleito presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Nova Andradina, assumindo uma missão que, mais de três décadas depois, ainda considera parte essencial de sua existência, defender aqueles que têm menos voz e que procuram justiça. “Defender aqueles que têm sede de justiça para mim não é trabalho. Eu faço por paixão. Porque só eu sei, na pele, o sofrimento dessas pessoas. Eu vim da roça e sei o que é passar pelas dificuldades.”

Uma época de grandes conflitos no campo Os primeiros anos da década de 2000 ficaram marcados, em Nova Andradina e em outras regiões do Mato Grosso do Sul, por intensas discussões sobre a destinação de grandes propriedades rurais e pela luta de centenas de famílias que sonhavam com um pedaço de terra para produzir.

Foi nesse cenário que Adilson se tornou uma das figuras mais presentes nas mobilizações ligadas à reforma agrária. As páginas dos jornais preservadas daquela época mostram seu nome repetidamente associado às negociações, reuniões, audiências, acampamentos e conflitos envolvendo trabalhadores rurais, fazendeiros, o Incra - Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, a Justiça Federal e outras instituições.

Entre as principais lutas estavam áreas como a Fazenda Teijin, em Nova Andradina, a Fazenda Santa Olga, além de conflitos anteriores envolvendo propriedades como Aldeia e Santa Clara, em Bataguassu.

Segundo Adilson, foram anos difíceis. “Foi uma época de lutas intensas pelas desapropriações de terras para a reforma agrária. Eu fui personagem principal nas lutas da Fazenda Teijin e Santa Olga, além das lutas anteriores em Bataguassu.”

A luta, porém, não acontecia apenas nas reuniões oficiais ou nas páginas dos processos. Ela também chegava à porta de casa.

A Fazenda Teijin e os acampamentos Em fevereiro e março de 2004, a situação da Fazenda Teijin ganhou grande repercussão regional.

As manchetes dos jornais daquele período registram a intensidade do conflito.

“Sem-terra continuam bloqueando Teijin”.

“Sem-terra não saem da Teijin”.

“Situação da Teijin continua indefinida”.

As reportagens mostram famílias acampadas nas entradas da propriedade, bloqueios nas porteiras e uma disputa que envolvia a possível desapropriação da área.

Em uma das matérias, o Jornal Imagem registrava. “As famílias que estão acampadas nas entradas da Fazenda Teijin esperavam integrantes do Incra, diz trecho da matéria”

Outra reportagem informava que os acampados bloqueavam as entradas da propriedade, incluindo acessos ligados à Fazenda Casa Branca. Enquanto as famílias permaneciam mobilizadas, as negociações avançavam lentamente entre representantes dos trabalhadores, órgãos públicos e autoridades.

Adilson aparecia como uma das principais vozes dos trabalhadores rurais de Nova Andradina. As matérias o identificavam como presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e registravam sua participação direta nas reuniões e negociações.

Uma das publicações da época resumiu a situação em uma fotografia que se tornaria símbolo daquele período, trabalhadores reunidos diante da Fazenda Teijin, com faixas, bandeiras e famílias mobilizadas.

Para Adilson, por trás daquele conflito havia algo maior do que uma disputa por uma propriedade.

Havia sonhos. “Eu sabia que estava lutando por quase dois mil sonhos de famílias camponesas. Famílias que sonhavam em entrar na agricultura familiar e ter uma oportunidade de produzir.”

Incra, Justiça e a disputa pela terra A questão da Teijin não se resolvia apenas nos acampamentos. Ela também chegava à Justiça Federal.

Uma reportagem publicada em março de 2004 informava que o juiz federal Odilon de Oliveira havia marcado audiência para discutir o destino da Fazenda Teijin. O processo envolvia informações técnicas e laudos de instituições como o Incra e o Ministério Público Federal.

Outra matéria registrava que os laudos apresentados no processo haviam sido objeto de divergências e discussões entre as partes.

Enquanto isso, as famílias continuavam aguardando uma definição. Em uma das reportagens, o cenário era resumido por uma frase que refletia a angústia daquele momento, “Situação da Teijin continua indefinida, diz trecho de outra matéria.”

Para quem estava no centro das negociações, cada audiência e cada reunião representavam mais um capítulo de uma luta que parecia não ter fim.

Em março daquele mesmo ano, outra manchete mostrava que até mesmo uma greve dos procuradores poderia interferir no andamento do processo, “Greve adia audiência...”

A definição sobre a propriedade e sobre o futuro das famílias dependia de decisões que envolviam Justiça, órgãos federais e os processos de desapropriação para reforma agrária.

“Fazendeiros queriam trancar minha saída de casa” A tensão provocada pelos conflitos agrários ultrapassou os limites das fazendas. Uma reportagem da época trazia uma manchete que revelava o clima vivido por lideranças envolvidas na disputa, “Ruralista quer trancar a casa de sindicalista.”

Adilson lembra que aquele período foi marcado por pressões e ameaças. Segundo seu relato, houve momentos em que fazendeiros chegaram a tentar intimidá-lo e ameaçar sua liberdade de circulação. “Foram épocas difíceis. Houve ameaças de morte, fazendeiros querendo trancar minha saída de casa. Mas nunca perdi a fé em Deus.”

Mesmo diante das pressões, ele afirma que continuou acreditando que sua missão era representar os trabalhadores que haviam confiado nele.

As reportagens também mostram o confronto público entre diferentes interesses. De um lado, proprietários rurais exigindo a desobstrução dos acessos. Do outro, trabalhadores acampados e lideranças sindicais defendendo as famílias que aguardavam uma solução para a questão fundiária.

“Negociamos com o Incra e o Governo” Uma fotografia publicada na coluna de um jornal registrou Adilson ao lado de outras lideranças durante aquele período. A legenda identificava o coordenador estadual do MST, saudoso Edson Toloti, e o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Nova Andradina, Adilson Remelli, informando que havia negociações com o Incra e o Governo.

O registro é uma das evidências jornalísticas de como o sindicalista estava diretamente envolvido nas articulações daquele momento.

A luta não era apenas de protesto.

Era também de negociação.

Era necessário conversar com autoridades, acompanhar processos, participar de audiências e buscar informações técnicas. Entre uma reunião e outra, havia centenas de famílias esperando uma resposta.

Santa Olga: a terra e o desafio de um novo começo Enquanto a Teijin mobilizava trabalhadores e autoridades, outra história relacionada à reforma agrária chamava atenção em Nova Andradina.

Uma manchete de jornal anunciava. “Incra dá mansão de R$ 1,5 milhão para sem-terra.” A reportagem tratava da Fazenda Santa Olga, onde trabalhadores sem-terra assumiriam uma área de aproximadamente 1.490 hectares.

Mas havia uma situação inusitada. Na propriedade existia uma grande mansão, com cerca de 1.500 metros quadrados, construída com alto investimento. A matéria informava que a intenção era encontrar uma utilização para o imóvel dentro da nova realidade da fazenda.

A notícia simbolizava uma das grandes transformações que estavam acontecendo no campo: propriedades antes concentradas em grandes estruturas passavam a fazer parte de projetos relacionados à reforma agrária e à agricultura familiar.

Para Adilson, aquele processo representava a concretização de uma luta longa. “No final, aquelas famílias tiveram a oportunidade que tanto sonhavam, entrar na agricultura familiar e construir uma nova história.”

A honestidade como escolha Em meio aos conflitos, às negociações e aos interesses econômicos que cercavam as grandes propriedades, Adilson afirma que enfrentou situações que colocaram seus princípios à prova. Segundo seu relato, recebeu propostas de propina e ofertas de diferentes valores feitas por pessoas interessadas nos rumos das negociações.

Mas diz que jamais aceitou. “Recebi ofertas de propinas de fazendeiros de todo tamanho, mas não caí em tentação. Preferi a honestidade que meus pais me ensinaram.”

Para ele, aceitar qualquer vantagem significaria trair não apenas a própria história, mas também os trabalhadores que o haviam escolhido para representá-los. “Eu tinha sido eleito para defender uma causa. A confiança dos trabalhadores não tinha preço.”

Essa decisão, afirma, foi guiada pela educação recebida dos pais. A honestidade aprendida na roça continuou sendo a mesma quando passou a ocupar posições de liderança.

Da liderança sindical ao Direito Depois de anos dedicados à representação dos trabalhadores rurais, Adilson decidiu iniciar uma nova etapa. Em 2007, ingressou no curso de Direito.

A escolha não significava abandonar a luta sindical. Pelo contrário, era uma forma de ampliar as ferramentas para defender as pessoas que sempre estiveram ao seu lado.

Em 2013, tornou-se advogado.

Aquele menino que havia crescido na roça, que mais tarde assumiria a presidência do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Nova Andradina, passava agora a defender seus clientes também dentro dos tribunais e por meio do conhecimento jurídico. “Tenho orgulho de defender a classe mais pobre, os mais carentes por justiça, os trabalhadores. Acho que nasci com esse dom.”

Sua atuação como advogado passou a representar uma continuidade daquilo que havia começado décadas antes.

Primeiro, a defesa dos trabalhadores por meio do sindicato. Depois, a defesa dos direitos também pela advocacia.

A origem nunca ficou para trás Apesar das mudanças na vida profissional, Adilson diz que nunca perdeu a ligação com sua origem. A roça continua sendo uma referência. É dela que ele diz tirar a compreensão sobre o sofrimento das pessoas mais humildes. “Foi lá da roça que eu vim. Foi de lá que eu saí quando fui eleito presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Nova Andradina.”

Mais de duas décadas depois do início das grandes mobilizações que marcaram a região, ele olha para trás e vê uma história construída entre dificuldades, conflitos e conquistas.

Segundo seu relato, as áreas que fizeram parte dessas lutas acabaram integrando processos de desapropriação por improdutividade, abrindo caminho para projetos ligados à reforma agrária e para famílias que buscavam uma oportunidade no campo.

Para ele, o maior patrimônio deixado por essa trajetória não é um cargo, uma fotografia ou uma manchete. São as vidas transformadas. “Eu deixei um legado grande para a cidade. Lutei por famílias que tinham sonhos. E muitos desses sonhos se realizaram.”

Uma vida dedicada à justiça Hoje, advogado e ainda profundamente ligado às causas sociais, Adilson vê sua trajetória como uma sequência natural.

A criança da roça.

O trabalhador.

O dirigente sindical.

O presidente do sindicato.

O protagonista de mobilizações pela reforma agrária.

E, finalmente, o advogado.

Mas, para ele, todas essas etapas fazem parte da mesma história.

A história de alguém que acredita que justiça não deve ser privilégio. “Defender quem precisa de justiça não é trabalho para mim. É paixão. É algo que faço porque conheço o sofrimento dessas pessoas. Eu já senti muitas dessas dificuldades na minha própria vida.”

Ao lembrar das pessoas que estiveram ao seu lado, ele faz questão de agradecer.

Aos trabalhadores que confiaram em sua representação.

Àqueles que caminharam ao seu lado nos momentos de conflito.

À família, pela educação baseada na honestidade.

E a Deus, pela força para atravessar os momentos mais difíce “Obrigado a todos vocês que depositaram confiança em mim. E obrigado a Deus, que foi tão justo comigo e com os trabalhadores que defendo.”is.

Mais de duas décadas depois das grandes mobilizações que ajudaram a marcar a história agrária de Nova Andradina, as antigas páginas dos jornais continuam registrando aquele período.

Nas manchetes aparecem palavras como sem-terra, Incra, acampamentos, Teijin, reforma agrária, audiências e desapropriação.

Mas, por trás das manchetes, existe também uma história pessoal.

A de um homem que saiu da roça para representar trabalhadores.

Que enfrentou pressões sem abandonar seus princípios.

Que transformou a experiência sindical em conhecimento jurídico.

E que, mesmo depois de se tornar advogado, afirma continuar sendo, essencialmente, aquilo que sempre foi. um homem do campo que escolheu passar a vida lutando para que outras pessoas também tivessem direito a um lugar, uma voz e justiça.



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