Saúde
Dois novos casos de cura indicam que o HIV pode estar com dias contados
Se, há quatro décadas, um diagnóstico do vírus era quase sinônimo de morte em questão de meses ou anos, hoje o cenário é outro
VEJA
Receber o diagnóstico de duas doenças graves costuma soar como uma sentença de morte. Em algumas circunstâncias, porém, essa combinação improvável, somada a fatores biológicos, abre caminho a algo pelo qual a medicina batalha há mais de quatro décadas: a vitória sobre o HIV e a cura da aids. Foi o que aconteceu, em 2007, com o americano Timothy Ray Brown, o primeiro ser humano a se libertar da infecção na história. Além do vírus, o “paciente de Berlim”, como ficou chamado devido ao tratamento realizado em um hospital alemão, foi surpreendido por uma leucemia, que exigia um transplante de medula.
Numa sacada de mestre, os especialistas encontraram um doador com uma característica presente em menos de 1% da população: uma mutação genética que bloqueia a entrada do HIV nas células de defesa. Com a medula “premiada”, Brown superou o câncer e o vírus da aids, eliminando todos os vestígios detectáveis do patógeno e vivendo sem a terapia antirretroviral até 2020, quando, aos 54 anos, morreu em decorrência do retorno da leucemia. Quase duas décadas depois, em meio à principal conferência científica sobre o assunto, sediada no Rio de Janeiro, dois novos casos de cura foram divulgados nos Estados Unidos. Agora, o mundo conta oficialmente com treze pessoas que se livraram das garras da aids.
Brown e os doze integrantes dessa virtuosa lista são personagens ainda atípicos de uma saga médica e social em torno da pandemia que, desde os anos 1980, afetou mais de 92 milhões de pessoas e matou ao menos 44 milhões pelo planeta. Atípicos porque, devido a uma conjunção de fatores — o diagnóstico concomitante de uma leucemia e a realização de um transplante com células naturalmente resistentes ao vírus —, entraram em remissão completa, mesmo sem antivirais, pelo menos doze meses depois do procedimento.
Embora seja impossível reproduzir essa mesma estratégia nos 40 milhões de pessoas que convivem com o HIV hoje, ela sinaliza que existem formas de derrotar um micro-organismo terrivelmente astuto. “Esse tipo de tratamento prova que a cura do HIV é biologicamente possível”, afirma o infectologista Ricardo Sobhie Diaz, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e um dos maiores pesquisadores na área. “A gente olha para o que deu certo no transplante de medula e pergunta: como replicar esse mesmo mecanismo sem precisar de uma técnica complexa como essa?” Trata-se de uma pergunta na qual se debruçam cientistas no mundo todo e que, apesar dos avanços inegáveis no tratamento antirretroviral — que passou de um coquetel com drogas bastante tóxicas a esquemas de poucos comprimidos diários, bem mais toleráveis —, alimenta um sonho de médicos e pacientes.
Uma das tentativas de respondê-la está em andamento na própria Unifesp. A ideia é emular a combinação de mecanismos do transplante de medula para desmontar os pilares da infecção. Isso envolve reduzir drasticamente os reservatórios do vírus e “resetar” o sistema imunológico, onde ele se esconde — o que, antes de um transplante, é feito com sessões de químio e até radioterapia. Só que, em vez desse bombardeio que exige altos cuidados e isolamento em hospital, Diaz e sua equipe testam medicamentos capazes de eliminar seletivamente as células que abrigam o vírus.
E, no lugar da medula geneticamente resistente, a ideia é usar drogas que bloqueiam o ponto de entrada do patógeno nas células. Por fim, para dar o golpe de misericórdia, os estudiosos buscam repetir um fenômeno que ocorreu em alguns pacientes “curados”. Depois do transplante, eles tiveram uma reação contra as células do doador. Embora isso seja potencialmente grave, demandou o uso de fármacos que parecem ter acordado o HIV alojado em esconderijos no corpo, tornando-o mais vulnerável ao ataque. Essa é a receita que inspirou o time de Diaz a bolar a nova abordagem em estudo.
Nos testes em andamento, cinco voluntários receberam, além da terapia antirretroviral convencional, uma combinação de medicamentos com o objetivo de diminuir os reservatórios virais e reativar o HIV “escondido”. Após interromper o protocolo, um deles, que ficou conhecido como o “paciente de São Paulo”, permaneceu por mais de um ano sem sinais detectáveis de replicação do vírus. O trabalho ganhou repercussão internacional por ser o primeiro a apresentar resultados promissores contra o HIV utilizando apenas remédios. “Agora, estamos analisando o perfil genético desse paciente para entender o que pode ter levado a essa resposta excepcional”, afirma Diaz. “O objetivo é identificar características que permitam prever quem teria maior chance de responder a esse tipo de tratamento e, no futuro, reproduzir o resultado em outras pessoas.”
Se a cura ainda depende de táticas complexas e experimentais, os novos medicamentos de longa ação já começam a mudar a trajetória da epidemia. Considerados o grande avanço dos últimos anos, eles miram um dos principais obstáculos: a dificuldade de manter a adesão ao tratamento, que também tem caráter preventivo. Diferentemente dos comprimidos diários utilizados em alguns regimes terapêuticos e na profilaxia pré-exposição (PrEP), essas novas opções oferecem proteção por semanas ou até meses. O principal exemplo é o lenacapavir, um medicamento injetável aplicado no abdome apenas duas vezes por ano.
Outro é o cabotegravir, administrado por injeção nas nádegas a cada dois meses. Durante a Conferência Internacional sobre Aids, no Rio de Janeiro, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou que a pasta pretende encaminhar a proposta de incorporar o cabotegravir no SUS. A VEJA, o Ministério da Saúde informou ainda que realizou uma reunião no último dia 30 de julho com a empresa Gilead, detentora da patente do lenacapavir, para dar continuidade às negociações que envolvem a redução do preço e a possível transferência de tecnologia para o Brasil.
A PrEP oral e as versões de longa ação apresentam eficácia semelhante na prevenção da infecção, mas a expectativa é que as injeções consigam alcançar um número maior de pessoas, até pela maior praticidade e aceitação das picadas. Os primeiros resultados de um estudo de implementação da estratégia liderado pela médica Beatriz Grinsztejn, na Fiocruz, reforçam a tese. Entre cerca de 1 500 participantes que puderam escolher entre a PrEP oral e o cabotegravir, 83% preferiram a injeção.
E, ao longo de dois anos de acompanhamento, 90% das aplicações foram realizadas dentro da janela de tempo recomendada, indicando alta adesão ao tratamento. “Nossa expectativa é que o cabotegravir alcance principalmente as populações mais vulneráveis, porque o perfil sociodemográfico de quem acessa a PrEP pelo SUS ainda é predominantemente de pessoas brancas e com maior escolaridade”, diz Grinsztejn, hoje presidente da Sociedade Internacional de Aids. “Esperamos mudar a situação atual e levar prevenção ao público mais acometido pelas novas infecções hoje.”
A ideia de diagnosticar, tratar e manter o vírus indetectável é crítica não só para a qualidade de vida dos indivíduos como para estancar a disseminação do HIV, que continua um dos principais desafios de saúde pública. O nó maior ainda se dá na África Subsaariana, que concentra mais de 50% dos novos casos no planeta. Mas, mesmo com tanto progresso, o Brasil tem muito trabalho pela frente — foram 39 200 casos em 2024, número 21% maior do que uma década antes. Desenvolver e disponibilizar terapias mais viáveis e eficazes certamente é um dos meios para virar o jogo de vez. Nessa direção, uma notícia a ser celebrada foi o acordo entre Fiocruz e MSD para viabilizar a produção nacional do antiviral alimatravir, um comprimido mensal que poderá substituir o esquema diário.
Se, há quatro décadas, um diagnóstico de HIV era quase sinônimo de morte em questão de meses ou anos, hoje o cenário é outro. “Se entrar agora um paciente no meu consultório e ele vier com uma sorologia positiva para HIV no início da infecção, eu digo: ‘Você vai ter a mesma expectativa de vida que qualquer pessoa. Basta tomar um único comprimido por dia, o que, em breve, deve mudar’”, afirma Alexandre Naime Barbosa, chefe do departamento de infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp). O tratamento, de fato, elimina os dois maiores medos associados ao vírus: o adoecimento inevitável e a transmissão para outras pessoas. Na teoria, isso não deveria continuar ocorrendo.
Mas, na prática… Embora o Brasil ofereça testes rápidos, tratamento e PrEP gratuitamente pelo SUS, entre 30% e 35% dos novos diagnósticos são feitos em indivíduos que já desenvolveram aids, a síndrome da imunodeficiência que caracteriza o estágio mais avançado da infecção. “Um paciente morrer como víamos acontecer nos anos 1980 é absolutamente inaceitável, dados os recursos que temos hoje”, diz Barbosa.
Assim, muito além da cura em si, é fundamental combater os redutos de desinformação e estigma que atrapalham a detecção e o controle viral, bem como as desigualdades sociais que acolhem alguns, enquanto abandonam outros. Nesse sentido, a cidade de São Paulo é vista como exemplo internacional de uma mudança de paradigma para cercar o HIV. Com oferta de PrEP em estações de metrô, horários estendidos de atendimento aos pacientes e outras ações, ela registra, pelo nono ano, redução nas taxas da infecção. É o caminho para eliminar a epidemia. A cura dá passos notáveis, em uma estrada montada com tijolos de esperança.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007