Fim da escala 6×1 avança, e indústria alerta para palavra-chave: produtividade

Mudança trabalhista é aposta de Lula para a eleição e, por sua popularidade, torna difícil para qualquer parlamentar votar contra

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Representantes da indústria alertam para os efeitos estruturais do fim da escala 6x1 sobre a atividade econômica do país (Gabriel Rosa/AEN/Divulgação)

Um dos carros-chefes da campanha à reeleição de Lula é o fim da escala de trabalho 6×1. Na última quarta-feira, 27, a Câmara aprovou uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que proíbe esse regime e reduz a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas, seguindo um período de transição de até catorze meses.

A emenda ainda precisará passar pelo Senado, e só poderá entrar em vigor quando as duas Casas chegarem a um consenso sobre o texto final. Trata-se de uma proposta extremamente popular, e que coloca em uma saia-justa qualquer político ou empresário que se manifeste contra dar um dia a mais de descanso para trabalhadores dedicarem à família, ao lazer e à própria saúde.  Aproveitando-se disso, o governo Lula tem investido pesado em publicidade oficial para defender a aprovação da PEC. O foco da propaganda é na promoção do bem-estar das pessoas.

Por outro lado, representantes da indústria alertam para os efeitos estruturais sobre a atividade econômica do país, apontando risco de estagnação ou até redução da renda dos trabalhadores se não houver ganho de produtividade. Um dos indicadores mais importantes do bem-estar econômico, a renda per capita tem avançado no Brasil por meio do bônus demográfico, que coloca mais pessoas em idade ativa no mercado de trabalho.

O último Censo mostrou que a população economicamente ativa tem envelhecido de forma mais rápida que o esperado e a ocupação tem seu limite físico. “O único fator para fazer avançar a renda per capita será a produtividade. No período de 1990 a 2025, o crescimento da produtividade tem sido nulo. Se descontar a agropecuária, o crescimento médio da produtividade no Brasil é negativo”, alerta o economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), João Paulo Pio.

Presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), Ricardo Alban esteve recentemente com o chefe do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), apelando para que os parlamentares deixem a análise da PEC aprovada na Câmara para depois das eleições deste ano. Alban lamenta a tendência que tem tomado conta do debate político brasileiro nas últimas décadas. 

“É um ano eleitoral que já começou há muito tempo, que tende a voltar para o ‘nós contra eles’. Isso não ajuda o diálogo, não ajuda a racionalidade, não ajuda a construção de entendimentos”, avalia o industrialista. “O 6×1 é algo em que essa bola vai querer ficar quicando o tempo inteiro. É um assunto efervescente. Nessa negociação com o Congresso Nacional, a gente pode ter dificuldades”. Ele deixa uma pergunta no ar sobre a dificuldade que parlamentares terão para assumir posição a medida populista: “Quem vai querer ser o pai da criança?”

Os receios não se limitam à indústria. O presidente da Confederação Nacional do Comércio (CNC), José Roberto Tadros, ressalta que manifestações são legítimas em uma democracia, mas pede que decisões “com impacto estrutural na economia e na sustentabilidade de milhões de empresas” sejam fundamentadas em critérios técnicos e diálogos equilibrados.

“A pressão política não deve substituir a análise criteriosa dos efeitos sobre a inflação, o custo operacional das empresas e a manutenção dos postos de trabalho”, diz o executivo. Tadros lembra que o Brasil tem um índice de produtividade estagnado em cerca de 17 dólares por hora trabalhada, contra mais de 60 dólares em países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).



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