Saúde
O efeito das canetas emagrecedoras na testosterona dos homens
Pesquisa pioneira revela impacto do tratamento para perda de peso nos níveis de testosterona
VEJA / CARLOS EDUARDO BARRA COURI SEGUIR SEGUINDO
Conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, medicamentos como Wegovy e Mounjaro prometiam (e entregaram) resultados impressionantes no combate à obesidade. Mas uma pesquisa recém-apresentada no congresso de urologia mais importante dos Estados Unidos sugere que o benefício vai muito além da balança. Elas podem impactar os níveis de testosterona.
Pesquisadores da Clínica Mayo, em Rochester, nos Estados Unidos, analisaram dados de 1629 homens que usaram semaglutida ou tirzepatida entre 2018 e 2025 e tinham exames de testosterona realizados antes e depois do tratamento.
O resultado surpreendeu: a testosterona total subiu, em mediana, de 320 para 419 ng/dL — uma elevação de 99 pontos – ou 31%. A testosterona livre, a fração que o corpo realmente usa, também aumentou significativamente.
Para entender a importância disso, é preciso um rápido passeio pelo corpo masculino. A testosterona é produzida principalmente nos testículos, sob ordens de uma cadeia de comando que começa no cérebro — o chamado eixo hipotálamo-hipófise-gonadal.
Em homens com obesidade ou resistência à insulina (condição em que o corpo não responde bem ao hormônio que regula o açúcar no sangue), esse sistema de comando costuma funcionar mal, levando a níveis baixos de testosterona. Consequências: cansaço, perda de massa muscular, queda de libido, dificuldade de concentração e até depressão.
A teoria mais óbvia seria que o emagrecimento causado pelos medicamentos restauraria esse eixo hormonal. Afinal, já se sabe que homens mais magros tendem a ter mais testosterona. Mas o dado mais intrigante do estudo é justamente esse: a melhora nos hormônios não foi diretamente proporcional à quantidade de peso perdida.
Isso indica que os medicamentos como tirzepatida e semaglutida podem estar agindo por caminhos próprios — talvez anti-inflamatórios, talvez metabólicos — que ainda precisam ser desvendados pela ciência.
Os pesquisadores foram cuidadosos em controlar variáveis como idade e índice de massa corporal inicial dos pacientes para garantir que o efeito observado fosse real. E foi. O aumento médio ajustado ficou em quase 98 ng/dL na testosterona total — uma diferença clinicamente relevante, capaz de tirar muitos homens da faixa considerada baixa para uma zona de funcionamento dentro dos valores de referência.
Os autores ressaltam que o estudo é retrospectivo — ou seja, analisa dados do passado sem controle de grupo comparativo — e que estudos prospectivos são necessários para confirmar a relação de causa e efeito. Mas o tamanho da amostra, com mais de 1 600 homens, confere robustez aos achados e abre uma janela promissora para a saúde masculina.
Se confirmados, os resultados podem ajudar a colocar as canetas não apenas como ferramentas de perda de peso, mas como potenciais aliadas na saúde hormonal e reprodutiva dos homens — especialmente aqueles com obesidade e doenças metabólicas, um grupo que raramente aparece no centro das atenções quando o assunto é fertilidade e função sexual.
COMENTÁRIOS


PRIMEIRA PÁGINA
