Saúde
Idosos com cérebro de jovens: cientistas desvendam o possível segredo
Estudo revela que superidosos conseguem gerar novos neurônios inclusive na velhice; entenda as implicações dessa descoberta
BATANEWS/BATANEWS/VEJA
Produzir novos neurônios – ou neurogênese, para os mais íntimos da ciência. Esse é o fenômeno que ajuda a explicar por que algumas pessoas com mais de 80 anos têm uma capacidade cognitiva equivalente à de adultos jovens. É o que aponta um novo e sofisticado estudo publicado na revista acadêmica Nature. Segundo ele, o cérebro de superidosos com uma memória muito acima da média gera mais que o dobro de células nervosas do que o de idosos típicos.
A pesquisa, liderada pela Universidade de Illinois, em Chicago, nos Estados Unidos, partiu da análise de uma região do cérebro chamada hipocampo (crucial para a memória e afetada por doenças como o Alzheimer) em indivíduos que já haviam morrido – tanto superidosos como pacientes com demência e sujeitos mais novos cujos históricos de saúde foram previamente registrados.
A conclusão é que o cérebro dos octogenários com cognição excepcional também continha neurônios imaturos, uma prova de que a neurogênese pode ocorrer na maturidade e estaria envolvida em um envelhecimento mais resiliente e saudável.
“Os cientistas descobriram nesse estudo que não só existe neurogênese na idade adulta como na velhice, algo pouquíssimo descrito até agora”, comenta o neurologista Wyllians Borelli, que coordena o Centro da Memória do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. “E essa característica pode ajudar a explicar por que essas pessoas conseguem manter tão bem a memória ao longo da vida.”
Depois de experimentos com animais demonstrarem o fenômeno da neurogênese na vida adulta e começarem a surgir evidências de que isso também acontecia entre seres humanos, uma nova fronteira foi aberta com a pesquisa americana ao mostrar que novas células nervosas também se desenvolvem entre indivíduos mais velhos.
Esse fenômeno ganha contornos especialmente importantes quando se leva em conta que, em doenças neurodegenerativas como o Alzheimer, há uma perda progressiva de neurônios, a começar pela área que ficou sob holofote no estudo, o hipocampo.
Os cientistas de Chicago realizaram uma investigação post-mortem do hipocampo de 38 pessoas, em faixas etárias e estados cognitivos e físicos diferentes. Elas foram divididas em grupos: adultos jovens e idosos cognitivamente saudáveis, superidosos, indivíduos com demência leve ou inicial e com doença de Alzheimer.
“Foi um trabalho gigantesco, porque eles examinaram mais de 350 000 núcleos de células dessa região e compararam os resultados entre idosos com 80 anos ou mais com a capacidade cognitiva preservada e aqueles com doença de Alzheimer”, destrincha Borelli.
A análise minuciosa mostrou que os superidosos apresentavam aproximadamente 2,5 vezes mais neurônios jovens do que os indivíduos com demência e cerca de duas vezes mais do que os idosos “normais”.
“A equipe também identificou que, entre os superidosos, há uma assinatura de resiliência revelada pela expressão de certos genes que não ocorre entre pessoas com um envelhecimento típico”, observa Borelli.
O que esses achados refletem na prática? “Eles auxiliam a entender por que superidosos com mais de 80 anos podem ter memória semelhante à de pessoas com 60”, diz o neurologista gaúcho.
Para o especialista do Moinhos de Vento, a revelação mais impactante é a de que neurônios podem ser criados mesmo na velhice, e esse pode ser um fator de proteção frente ao Alzheimer, condição em que só se encontram células nervosas maduras e, devido ao acúmulo de placas, há um processo de destruição neuronal.
O segredo do envelhecimento cerebral dos superidosos não parece se restringir ao fenômeno da neurogênese.
Os estudiosos identificaram sinais moleculares de resiliência neuronal dos superidosos em níveis praticamente comparáveis aos de adultos jovens e eles envolviam a expressão de genes que codificam o BDNF, o fator neurotrófico derivado do cérebro, substância já apelidada de “fertilizante de neurônios”.
Além disso, detectaram mudanças na configuração de outra célula que habita o cérebro, o astrócito. “Ele é uma célula que dá suporte aos neurônios e era visto como secundário até tempos atrás, mas hoje se sabe que é essencial para o cérebro e que processos degenerativos como o Alzheimer começam com ele”, conta Borelli.
O médico explica que, segundo o experimento da Nature, astrócitos dos superidosos apresentam uma mudança de conformação que pode resguardar melhor os neurônios. “Essa célula é fundamental porque fornece a ‘alimentação’ do neurônio e, ao que tudo indica, parece que nessas circunstâncias examinadas ele funciona de uma forma superior e protetora.”
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