Na luta contra a depressão, Carla encontrou nos terços um recomeço

O que começou como distração virou um negócio que hoje leva fé a diferentes estados do País

CLAYTON NEVES / CAMPO GRANDE NEWS


Veio do Marido, Everton, a sugestão para que Carla fizesse terços artesanais. (Foto: Arquivo Pessoal)

Depois de 15 anos trabalhando na área da saúde, Carla de Melo sentiu o peso da rotina e chegou a um período difícil, marcado pela depressão e por problemas de saúde. Em meio ao desgaste emocional, a sugestão do marido de fazer terços artesanais para distrair a cabeça acabou abrindo um novo caminho. De uma atividade para ocupar o tempo, os terços viraram um pequeno negócio e uma maneira de compartilhar com outras pessoas a fé que ela própria reencontrou.

Aos 37 anos, Carla conta que passou por uma fase em que se sentia sobrecarregada. O contato diário com o público e as situações vivenciadas no trabalho começaram a pesar emocionalmente. Foi então que o marido, Everton, sugeriu que ela procurasse alguma atividade artesanal para aliviar a cabeça. 'Eu falei: 'Mas eu não tenho ideia, não tenho mais nada'. Aí ele falou: 'Tenta fazer terço'', lembra.

A sugestão veio em um momento em que Carla também estava afastada da igreja. Em fevereiro deste ano, incentivada pelo marido, que já era católico praticante, ela começou a participar do grupo de oração ‘Enchei-vos’, ligado à Igreja Católica. Os encontros e a convivência com outras pessoas ajudaram a fortalecer novamente sua relação com a fé.

Carla conta que sentiu como se tivesse recebido um chamado para voltar a se aproximar de Deus. Com o tempo, ela e Everton deixaram de ser apenas participantes e passaram a atuar como servos do grupo, ajudando a incentivar outras pessoas na caminhada religiosa.

'Foi muita oração. Eu sinto que foi um chamado de Deus para me puxar de volta para a igreja. Tudo isso foi um jeito de mostrar que é no caminho dele que eu tenho que seguir', afirma.

Foi nesse processo que os terços começaram a ganhar espaço na rotina. No início, Carla não pensava em transformar a atividade em fonte de renda. Produzia as peças para se distrair e depois presenteava amigos e conhecidos. A mãe também teve participação importante nesse começo, ajudando a comprar os materiais necessários.

A procura foi surgindo naturalmente. Pessoas que recebiam os terços começaram a perguntar se ela aceitava encomendas e quanto cobrava. 'Eu não estava vendendo. Se alguém me pedia eu dava. Depois, decidi começar a vender as peças por valores mais acessíveis', destaca.

Hoje, os terços custam entre R$ 50 e R$ 100, dependendo do modelo e dos detalhes escolhidos. Além da peça artesanal, Carla oferece opções em caixinhas com imagens religiosas e personalizações com nomes e fotografias. “Também dá para incluir fotos de pessoas ou do santo de devoção de quem vai receber o presente', detalha.

Cada encomenda tem características próprias. Algumas pessoas chegam com uma ideia definida, com cores e detalhes específicos. Outras deixam a criação por conta dela, que busca referências em sites de dioceses e modelos encontrados em igrejas.

Carla compra materiais de diferentes lugares, inclusive com a ajuda de uma prima que mora em São Paulo (SP) e consegue encontrar preços de atacado. Em Campo Grande, também conta com pessoas que produzem os entremeios, pequenos detalhes utilizados na montagem dos terços.

Entre os modelos mais procurados estão os dedicados a Nossa Senhora Aparecida, São Bento, Santa Teresinha e Carlo Acutis. Este último, inclusive, faz sucesso principalmente entre os jovens.

A devoção ao jovem santo tem uma ligação especial com Mato Grosso do Sul, já que Campo Grande ficou conhecida pela relação com o milagre atribuído à sua intercessão. Para Carla, a popularidade de Carlo Acutis também ajuda a aproximar os mais novos da Igreja Católica.

Confira a galeria de imagens:

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Ela e o marido participam das atividades na Igreja Nossa Senhora das Graças, nas Moreninhas, onde também ajudam a formar um grupo de jovens. A iniciativa ainda está no começo, mas a intenção é aproximar adolescentes e jovens da comunidade religiosa.

Carla pertence à Paróquia Sagrado Coração de Jesus e Maria e tem uma devoção especial por Santa Teresinha. É justamente dessa ligação que surgiu o nome do perfil onde divulga o trabalho: Rosas do Carmelo.

Os terços já ultrapassaram os limites de Campo Grande e chegaram a diferentes cidades e estados brasileiros. As encomendas são enviadas pelos Correios e, para Carla, cada entrega representa a oportunidade de levar um pouco da própria fé a alguém.

“Acho que as carregam um significado. Ganhar um terço de presente é uma bênção, é um carinho muito grande de uma pessoa. Você não gosta de uma pessoa e vai dar algo tão valioso?', comenta.

Mesmo com o crescimento das encomendas, Carla diz que o trabalho continua tendo um significado que vai além da venda. A confecção se tornou uma forma de evangelizar e compartilhar com outras pessoas aquilo que acredita ter recebido durante seu próprio processo de reencontro com a fé.

Ela afirma que se sente muito melhor atualmente e continua fazendo acompanhamento médico para cuidar da saúde. A melhora, segundo ela, também está relacionada à aproximação com a igreja, ao apoio da família e à possibilidade de desenvolver uma atividade que lhe proporciona satisfação.

'Eu melhorei muito na minha vida depois que voltei a seguir o caminho de Deus. O terço foi um jeito de conseguir evangelizar mais pessoas, de querer abençoar mais pessoas do jeito que fui abençoada', finaliza.

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