Saúde
Endometriose e diabetes: muito além das dores, doença pode mexer com a glicose
Estudo americano encontra associação entre o problema feminino e maior risco de diabetes tipo 2
VEJA
A endometriose já é conhecida por causar dor pélvica intensa, infertilidade e um impacto profundo na qualidade de vida de milhões de mulheres. Um novo estudo publicado na revista Diabetologia — periódico oficial da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes — sugere que seus efeitos podem ir além do sistema reprodutivo e alcançar o metabolismo.
Pesquisadores da Universidade de Utah e da George Mason University, nos Estados Unidos, encontraram uma associação entre a doença e um risco significativamente maior de diabetes tipo 2.
O trabalho, batizado de ARCHES (sigla em inglês para Pesquisa Avançada sobre Saúde Cardiovascular e Endometriose), é um estudo de coorte retrospectivo e dinâmico, construído a partir do Banco de Dados Populacional de Utah — um dos maiores repositórios de registros de saúde e genealógicos dos Estados Unidos, com informações de mais de 11 milhões de pessoas.
Os cientistas acompanharam 2. 939. 364 mulheres cadastradas no sistema entre 1996 e 2021, por um período médio de quase 11 anos. A endometriose e seus subtipos foram identificados por códigos diagnósticos validados em prontuários eletrônicos, e os casos de diabetes tipo 2, pelos mesmos registros. Os pesquisadores usaram modelos estatísticos que ajustam o risco para idade, ano de nascimento, raça, etnia e peso corporal, entre outros fatores.
No total, 99. 978 mulheres (3,4% da amostra) receberam diagnóstico de endometriose ao longo do período estudado. Comparadas às mulheres sem a doença, elas tiveram um risco 46% maior de desenvolver diabetes tipo 2.
Para efeito de referência estatística, os autores calcularam o chamado “valor E”, que indica quão forte precisaria ser um fator de confusão não medido para anular esse resultado — nesse caso, ele teria de dobrar o risco de diabetes por conta própria, o que os pesquisadores consideram pouco provável.
O perfil demográfico revela diferenças marcantes entre quem teve a doença e quem não teve. As mulheres com endometriose nasceram, em média, mais cedo (ano mediano de nascimento: 1973) do que as sem a condição (1986) — reflexo do tempo que muitas vezes é necessário até o diagnóstico ser fechado. Elas também eram mais frequentemente brancas (89,3% vs. 65,0%), tinham maior probabilidade de já terem sido casadas (62,4% vs. 30,2%) e, ao contrário do que se poderia supor, eram menos propensas a não ter filhos: apenas 44,1% eram nulíparas, contra 77,0% no grupo sem a doença.
Do ponto de vista metabólico, o grupo com endometriose tinha, na verdade, uma proporção maior de mulheres com peso considerado saudável (IMC entre 18,5 e 24,9 kg/m²): 56,5%, contra 34,8% entre as sem a doença. Ainda assim — e esse é um dos pontos centrais do estudo —, a prevalência de diabetes já registrada nesse grupo era mais que o dobro (10,6% vs. 4,3%). Outras diferenças incluíram maior histórico de tabagismo entre as mulheres com endometriose (5,2% vs. 1,6%) e leve predomínio de residência em áreas urbanas (82,1% vs. 80,2%).
Um dos achados mais interessantes é que o risco varia bastante conforme o local onde a doença se instala. Formas mais raras, que afetam órgãos fora da pelve — como intestino, parede abdominal ou tórax —, mostraram o maior impacto: até 167% de risco a mais de diabetes.
Já a endometriose superficial do peritônio elevou o risco em 67%; a ovariana, em 61%; e a profunda, associada a lesões mais invasivas, em 45%. O estudo também analisou a adenomiose, condição em que tecido semelhante ao endométrio — a camada que reveste o interior do útero — cresce dentro da parede muscular do próprio útero (o miométrio), em vez de se instalar em outros órgãos, como ocorre na endometriose clássica.
Por muito tempo, a adenomiose foi chamada de “endometriose do útero” e tratada como um subtipo da doença, mas hoje a ciência já a reconhece como uma condição distinta, com mecanismos e implicações clínicas próprios — ainda que relacionada e frequentemente associada à endometriose. Na análise dos pesquisadores, a adenomiose também apareceu ligada a um risco 34% maior de diabetes tipo 2.
O estudo revelou um padrão que chama a atenção: o impacto da endometriose sobre o risco de diabetes foi mais forte justamente entre as mulheres tradicionalmente vistas como de baixo risco metabólico — as mais jovens, magras e sem histórico de diabetes gestacional. Entre mulheres na pré-menopausa, o risco associado à doença foi 55% maior.
Entre as com índice de massa corporal abaixo de 30, o risco chegou a mais que dobrar, contra um aumento de 74% nas mulheres com IMC mais alto. E mesmo entre mulheres sem qualquer diabetes na gravidez, o risco praticamente dobrou — sinal de que a explicação não está apenas nos mecanismos tradicionais associados à obesidade ou a complicações gestacionais.
Os próprios autores fazem ressalvas importantes. O estudo é observacional — mostra uma associação, não uma relação de causa e efeito. Mulheres com endometriose costumam ter mais contato com o sistema de saúde, o que pode aumentar as chances de um diagnóstico de diabetes simplesmente por serem mais monitoradas, um fenômeno chamado viés de vigilância.
Essa hipótese ganha força porque, quando os pesquisadores restringiram a análise às mulheres com diagnóstico confirmado por laparoscopia — o padrão-ouro para identificar a doença —, a associação com o diabetes caiu para um aumento de 31% no risco, ainda relevante, mas bem menor que os 46% da análise principal. Fatores não medidos, como alimentação, atividade física e uso de terapias hormonais, também podem influenciar os resultados.
Para os pesquisadores, a conclusão central é que a endometriose pode ser um marcador precoce de risco metabólico, e não apenas uma doença ginecológica isolada.
Isso reforça a importância de um acompanhamento clínico mais amplo para quem convive com a condição, que inclua também o monitoramento de glicemia e outros fatores de risco cardiometabólico — especialmente porque o estudo indica que esse risco pode surgir mesmo em mulheres magras e sem outros fatores de alerta tradicionais.
Nesse cenário, é fundamental o médico ginecologista fazer o rastreamento rotineiro de diabetes nas suas pacientes, mesmo naquelas sem obesidade e sem história de diabetes gestacional. O rastreamento pode ser feito com glicemia de jejum e/ou dosagem da hemoglobina glicada, que mostra a média da glicose dos últimos 3 meses, e/ou o teste oral de tolerância à glicose, em que a mulher mede a glicose em jejum e após ingerir 75 gramas de açúcar, a glicose é medida 1 ou 2 h após.
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