Dia do Homem traz debate sobre crise de masculinidade e boom de cursos 'para machos'

FOLHA


Catarina Pignato/Folhapress

O Dia do Homem, celebrado no Brasil neste 15 de julho, surgiu como uma brincadeira, conta o escritor Edson Marques, que afirma ser um dos idealizadores. A data teria sido proposta pela Ordem Nacional dos Escritores durante um jantar em São Paulo, em 1992. No ano seguinte, a Pensão Jundiaí, confraria comandada pela escritora Mariazinha Congílio, consolidou a efeméride premiando personalidades masculinas.

Ao longo dos anos, o dia tomou outro rumo e passou a ser adotado formalmente e usado para promover a conscientização da saúde masculina, estimulando o autocuidado. É diferente do Dia da Mulher, em 8 de março, reconhecido pela ONU como marco da luta por direitos de igualdade de gênero.

Na década de 1990, o papel do homem na sociedade, e até mesmo o que significa ser homem, não era algo debatido. A ideia de que isso fosse algo a ser revisado e transformado não era questionado como hoje, diz Guilherme Valadares, fundador do Papo de Homem, projeto destinado a eles que propõe discutir masculinidades.

'Falar sobre o tema em público praticamente não existia', diz Valadares, que fundou a plataforma em 2006. O debate então girava em torno de como ser mais viril e mais bem-sucedido, completa. 'Conversar sobre masculinidade existia como piada de revista masculina, como dica de comportamento e uma obrigação. Hoje se fala em masculinidades, no plural.'

A efeméride chega em 2026 cercada de debates sobre a crise da masculinidade hegemônica, o crescimento do movimento red pill e a explosão de 'cursos para macho'.

Por outro lado, mais homens estão se abrindo ao debate de desigualdade de gênero e buscando ser melhores pais, filhos e maridos, diz Valadares. Um estudo nacional feito pelo Instituto Papo de Homem em parceria com o Pacto Global da ONU - Rede Brasil, em 2023, mostra que 9 a cada 10 homens adultos gostaria de participar de um programa que os ajudasse a desenvolver equilíbrio emocional, atitudes de responsabilidade, respeito e cuidado.

O instituto também ouviu garotos de 13 a 17 anos. Seis em cada dez deles disseram ter pouca ou nenhuma referência masculina com quem convivem no cotidiano, e 7 em cada 10 querem aprender como tratar meninas e mulheres com respeito, igualdade e sem violência.

Há um movimento progressista de mudança das masculinidades, diz Valadares. O estereótipo de homem analfabeto emocional, que não sabe pedir ajuda e é obcecado com trabalho, performance, dinheiro, conquistas sexuais e poder, no entanto, ainda é comum. 'Isso atravessa gerações de modo quase intacto, porque é uma mudança que se transmite menos por discurso e mais por exemplo, dentro de casa, entre pai e filho, entre grupos de amigos', explica.

Eles carregam os mesmos roteiros internos de pais ou avós, 'tentando operar num mundo que já não corresponde a esses roteiros', completa. 'Essa defasagem entre o que mudou fora e o que não mudou dentro é uma das chaves para entender o momento atual.' Por outro lado, o contramovimento reacionário ganha força globalmente.

O debate da crise da masculinidade voltou a ser aquecida na esteira de produções como a série 'Adolescência' (2025), da Netflix, e de recordes de casos de feminicídio, diz Pedro de Figueiredo, fundador do Memoh (Homem, de trás para frente), projeto criado em 2017 que oferece encontros grátis para discutir masculinidade em grupo.

Para Figueiredo, no entanto, trata-se da manutenção de uma crise que existe há mais tempo. Ele observa dois caminhos para lidar com esse incômodo. Um deles se manifesta numa vergonha, que o publicitário vê de forma positiva. 'Ela precisa ser estimulada. É um sintoma de que você se importa. Esse constrangimento inicial vira um incômodo a ponto de se mobilizar', diz ele.

O outro caminho é o masculinista: o homem ressentido terceiriza a responsabilidade para alguém. Esse movimento prega que os homens são vítimas do feminismo. Eles buscam reestabelecer a estrutura privilegiada que funcionava até então para os homens.

Há um esgotamento do modelo tradicional de masculinidade que não tem funcionado nem para os próprios homens, segundo Paulo Gonzaga, psicólogo e pesquisador sobre masculinidades. A imagem do homem do século 19, que continua sendo considerado o modelo ideal ainda hoje, mantém relação com a opressão de gênero e dominação dos corpos femininos, ele avalia.

Nessa lógica, o homem deve ser provedor, forte, racional e sexualmente ativo. 'Esse homem hegemônico é importante enquanto estrutura social para perpetuar o poder', ele diz, mas outras formas de ser homem vêm ganhado espaço a partir de conversas e coletivos.

'É necessário compreender que existem várias formas de ser homem e várias formas de exercer sua masculinidade. Quando a gente compreende que para ser homem precisa ser de uma forma, a gente reduz a experiência e produz sofrimento para aqueles que não conseguem ou não se reconhecem', completa Gonzaga.

Apesar dessa imagem criada de bom pai, bom esposo e homem da família, o que se tem visto são homens relacionados a escândalos de traição, de violência contra a mulher, de uso abusivo de substância, diz Gonzaga.

O pesquisador observa que os homens negros, no entanto, não desfrutam desses privilégios da estrutura patriarcal. Para que os brancos mantivessem sua posição privilegiada, foi preciso desmoralizar negros e indígenas e colocar a mulher como lugar de submissão, ele explica.

A construção do homem negro passa por outros atravessamentos, afirma Gonzaga. Entre eles, o racismo, que produz um homem a partir de uma lógica de hipersexualizada, e a desigualdade social, que não oferece as mesmas ferramentas para que o homem seja o provedor da casa que a sociedade ensinou a ser.

Essa estrutura patriarcal também depende da mulher, cuja tarefa é o cuidado privado. Quando ela se emancipa, essa parte fica em falta, diz Mayhumi Kitagawa, fundadora da Athos, consultório especializado no atendimento de homens.

O movimento red pill surge para fazer a manutenção desse sistema de poder que privilegia o homem. Muitos não acompanham os avanços das mulheres e ficam presos a um modelo antigo, diz Djamila Ribeiro, escritora e colunista da Folha, que vai transformar em livro um curso sobre o pensamento red pill.

Djamila observa que esse não é um fenômeno novo, mas seus discursos têm se atualizado e migrado para as redes sociais. Nesse cenário, surgem coaches e influenciadores que promovem cursos que reforçam estereótipos de gênero e lucram em cima da frustração desses homens.

É um discurso sedutor, ela diz, mas que sofre uma radicalização e culmina num discurso misógino. Muitos dos líderes desses movimentos, ela explica, são supremacistas brancos, apoiadores de figuras políticas conservadoras e da extrema-direita. Esse discurso, no entanto, também chegou à periferia, ela observa.

Segundo Valadares, as pesquisas do Instituto Papo de Homem mapearam que esse discurso que atrai adolescentes e adultos quase nunca começa com discurso explícito de ódio. E sim com conteúdo de autoajuda, disciplina, malhação e produtividade. 'Só depois desliza para conteúdo que trata mulheres como adversárias e explica o sofrimento do menino como culpa de uma cultura que seria supostamente antihomens', explica.

Figueiredo, do Memoh, avalia que é preciso envolver os adolescentes nos debates de masculinidade, mas, por outro lado, tem receio de que depositar a esperança de que essa nova geração de homens vai salvar o mundo pode criar uma pressão muito grande nos meninos.

Homens têm buscado ajuda em coaches e influenciadores da machosfera, em vez de terapeutas, porque é um confortável para a relação de poder, diz Kitagawa, do Athos. 'Eles vão falar o que os homens querem ouvir'. A psicóloga, que também é fundadora do Sou Pagu, especializado no atendimento a mulheres, afirma que o consultório surgiu a partir de pedidos de pacientes mulheres que avançavam em autoconhecimento, mas sentiam que seus parceiros ou familiares homens não tinham ferramentas equivalentes para acompanhar 'Quando as mulheres avançam sozinhas no autoconhecimento, a relação fica desequilibrada', diz.

Todos os profissionais que atendem os cerca de 60 clientes hoje são homens. Kitagawa afirma que isso facilita o processo terapêutico, pois, se a profissional é mulher, o paciente encara o processo só como um desabafo.

Preocupações ligadas às dores de encarar a vida como um homem na sociedade são levadas aos encontros do Memoh, que ocorrem online a cada 15 dias, para grupos de 20 homens maiores de idade. Os temas partem de questões particulares dos participantes. Entre eles, estão medo do feminismo, como conciliar a ascensão profissional com o cuidado com os filhos e sexualidade.

Desde que Figueiredo fundou o projeto, em 2017, ele sente o debate público está mais maduro. De um ano e meio para cá, percebe um público mais engajado. Ele também observou uma mudança de público, transformada pelo bolsonarismo e a ascensão da direita. Antes, tinha mais diversidade política. Agora, quem os procura são homens progressistas. Geralmente, eles chegam ao projeto recomendados pela namorada, amiga ou amigo que está fazendo.

Homens geralmente só procuram psicólogo quando percebem que algo está errado, e não porque querem se conhecer melhor, diz Gonzaga, o pesquisador. Primeiro, ele acha que é algo do coração ou um cansaço no trabalho. 'É difícil para o homem que foi produzido para ser o super-herói, aquele que protege a família, admitir que precisa de alguém. Quando eles procuram ajuda, já estão num sofrimento intenso.'



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