Saúde
Câncer de próstata: em estudo, nova estratégia de tratamento reduz morte em 20%
Esquema que também diminuiu espalhamento da doença foi apresentado em sessão especial da reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco)
REDAçãO
CHICAGO* – Uma nova estratégia de tratamento para o câncer de próstata de alto risco que pode mudar os rumos da abordagem para frear a doença foi apresentada neste domingo, 31, em sessão especial da reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco) que reúne 45 mil especialistas e pesquisadores em Chicago, nos Estados Unidos. Com o esquema avaliado em estudo de fase 3, os pesquisadores identificaram uma redução de 20% no risco de metástases ou morte em um ano.
O estudo PROTEUS propôs, de forma experimental, uma mudança no padrão atual de tratamento para os tumores de próstata localizados e de alto risco, que prioriza a realização da cirurgia e radioterapia. Por mais que a estratégia atual seja eficaz, metade dos pacientes acaba vivenciando o retorno da doença cinco anos após o tratamento.
O ensaio clínico testou o uso do medicamento apalutamida, da Johnson & Johnson, combinado com terapia hormonal conhecida como ADT seis meses antes e seis meses depois da cirurgia. Foram recrutados 2.109 participantes de 18 países, incluindo o Brasil.
Os resultados, publicados no periódico científico The New England Journal of Medicine, indicaram que esse desenho levou não só à redução do risco de metástase e morte (20%), mas diminuiu o risco de retorno do tumor em 29% e, no caso de metástases em órgãos distantes, a queda foi de 32%. A probabilidade de sobrevida livre de metástases em cinco anos foi de 78,2%.
“Este é um estudo internacional feito em 18 países, com diversidade, que mostra que o controle do câncer de próstata localizado de alto risco é fundamental”, disse, a autora do estudo, Mary-Ellen Taplin, oncologista clínica do Dana-Farber Cancer Institute e da Harvard Medical School, durante apresentação.
O oncologista clínico Fernando Maluf, fundador do Instituto Vencer o Câncer, avalia que os resultados abrem novos caminhos para o tratamento da doença.
“O estudo mostrou uma eficácia muito importante em pacientes com risco para metástase, com a presença de doença microscópica, eventualmente não vista pelos exames de imagem e a taxa de resposta, ou seja, erradicação da doença na peça cirúrgica, foi de quase dez vezes mais com redução no risco de metástase de 20%, dando ganhos reais de eficácia.”
Para Denis Jardim, líder nacional da especialidade de tumores urológicos da Oncoclínicas, o PROTEUS se destacou por ser uma abordagem que considera desde o período pré-operatório da doença, o que pode ser considerado raro, em pacientes que apresentam o câncer de próstata com mais possibilidade de não cura com cirurgia e de reaparecimento dos tumores.
“Também mostrou melhora em outros desfechos e o mais relevante foi atrasar a necessidade de terapias adicionais em mais de três anos. Isso tem o potencial de mudar a prática para alguns pacientes que, normalmente, iriam direto para a cirurgia”, explica e completa: “Um estudo dessa magnitude mostra que há espaço para beneficiar o paciente com um tratamento pré-operatório e melhorar resultados de eficácia em cirurgias”.
Outro achado que somou pontos para o esquema de tratamento foi a recuperação dos níveis adequados de testosterona, uma preocupação dos pacientes, que ocorreu em um período de 8,1 meses. O principal evento adverso foi a maior incidência de erupções cutâneas no grupo da apalutamida, apontado como a causa que mais levou à descontinuação do tratamento.
Um ponto de atenção foi o índice mais elevado dos eventos adversos graves e potencialmente fatais no grupo do novo esquema, presentes em 39,6% dos pacientes tratados com a estratégia ante 31% no grupo que fez apenas a terapia hormonal. Os principais eventos foram acúmulo de líquido linfático, infecção do trato urinário e embolia pulmonar em ambos os grupos.
“Esse estudo estabelece um novo nível de cuidado, porque demonstrou que é muito favorável fazer a combinação de apalutamida e ADT”, afirmou o urologista Declan Murphy, diretor de oncologia geniturinária e cirurgia robótica do Peter MacCallum Cancer Center, na Austrália.
Segundo ele, os benefícios observados nos pacientes justificam a adoção do esquema de tratamento, que ainda não tem aprovação de agências regulatórias. “Progresso não é só sobre destino, mas sobre a jornada e é isso que o estudo está mostrando para o paciente”, afirmou Murphy em uma apresentação com alusões às conquistas da missão Apollo 8, pioneira em orbitar a Lua com tripulantes em 1968.
*A repórter viajou para a reunião anual da Asco a convite da Johnson & Johnson Innovative Medicine no Brasil
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