A bola de neve econômica que pode atingir Lula por suas próprias políticas

Pesquisador da FGV afirma que arcabouço fiscal do governo não tem mais 'nenhuma credibilidade' no mercado

VEJA


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante discurso (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Todo governante tem um enorme incentivo para abrir os cofres e turbinar os gastos com a máquina pública em anos de eleição, por mais irresponsável que isso possa parecer. Um dos motivos é simples: é improvável que um grupo da população beneficiado por uma política pública no primeiro ano de um mandato presidencial, por exemplo, lembre-se disso como fator principal para decidir o voto quando estiver de frente para a urna quase quatro anos depois. 

Quando as medidas são lançadas, recicladas, anunciadas ou ao menos propostas pelo governo a poucos meses do pleito, o eleitorado não vai sentir as consequências imediatamente. Além disso, o histórico de pesquisas nas últimas décadas aponta, de fato, para algum nível de êxito do mandatário da vez em transformar a gastança eleitoreira em melhores índices de popularidade, com baixo risco enfrentar uma punição pela Justiça Eleitoral mais adiante por  esgarçar – ou mesmo violar – os limites impostos pela legislação para o uso da máquina pública como instrumento de campanha.

Dentro do pacotão de bondades do governo Lula estão medidas temporárias, como subvenções para segurar a alta dos combustíveis provocada pela guerra no Irã, ou que não teriam custo político tão alto se fossem revertidas mais adiante — ao contrário, por exemplo, da elevação do valor do Bolsa Família (à época chamado Auxílio Brasil) para 600 reais promovida por Jair Bolsonaro quatro anos atrás.

É justamente esse aspecto variável dos gastos que torna difícil estimar, com precisão, o tamanho de seu impacto nos cofres federais. Economistas ouvidos por VEJA não titubeiam em prever um acentuamento da trajetória de crescimento da dívida pública, que manteve a tendência de alta ao longo de todo o atual governo. 

“Hoje, o arcabouço fiscal do governo Lula não tem credibilidade nenhuma no mercado. Ninguém confia que ele vá controlar a dívida. Ano que vem, independentemente dessas medidas de agora, o governo, seja qual for, vai ter que repensar toda a institucionalidade de controle dos gastos e da dívida pública do país”, afirmou o pesquisador Rafael Barros Barbosa, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV. 

Para o economista, o cenário para o próximo ano é “muito desafiador” . “Provavelmente será preciso fazer um arrocho maior do que se não houvesse essas medidas. Se não tivesse um pacote tão grande, não seria necessário o Banco Central reverter a tendência de queda da taxa de juros. Ainda precisaria fazer um ajuste fiscal, mas não tão apertado”, disse Barbosa.

Com uma enxurrada de estímulo ao crédito que pode chegar à ordem de 230 bilhões de reais, segundo a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), o governo Lula vai criar uma bola de neve que pode atingir o próprio presidente no ano que vem, se ele alcançar a reeleição.

“As famílias vão tendo acesso a crédito, vão comprar mais e isso tende a pressionar a inflação. Pressionando a inflação, a reação natural é aumento da taxa de juros no próximo ano e, aí, o governo entra em uma situação de ter que cortar gastos, porque não tem como expandir a receita. Vai ter que repensar o arcabouço fiscal enquanto a economia vai estar com o freio de mão puxado, porque o Banco Central vai tentar controlar a inflação”, resume o pesquisador da FGV.



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