Política
A bola de neve econômica que pode atingir Lula por suas próprias políticas
Pesquisador da FGV afirma que arcabouço fiscal do governo não tem mais 'nenhuma credibilidade' no mercado
VEJA
Todo governante tem um enorme incentivo para abrir os cofres e turbinar os gastos com a máquina pública em anos de eleição, por mais irresponsável que isso possa parecer. Um dos motivos é simples: é improvável que um grupo da população beneficiado por uma política pública no primeiro ano de um mandato presidencial, por exemplo, lembre-se disso como fator principal para decidir o voto quando estiver de frente para a urna quase quatro anos depois.
Quando as medidas são lançadas, recicladas, anunciadas ou ao menos propostas pelo governo a poucos meses do pleito, o eleitorado não vai sentir as consequências imediatamente. Além disso, o histórico de pesquisas nas últimas décadas aponta, de fato, para algum nível de êxito do mandatário da vez em transformar a gastança eleitoreira em melhores índices de popularidade, com baixo risco enfrentar uma punição pela Justiça Eleitoral mais adiante por esgarçar – ou mesmo violar – os limites impostos pela legislação para o uso da máquina pública como instrumento de campanha.
Dentro do pacotão de bondades do governo Lula estão medidas temporárias, como subvenções para segurar a alta dos combustíveis provocada pela guerra no Irã, ou que não teriam custo político tão alto se fossem revertidas mais adiante — ao contrário, por exemplo, da elevação do valor do Bolsa Família (à época chamado Auxílio Brasil) para 600 reais promovida por Jair Bolsonaro quatro anos atrás.
É justamente esse aspecto variável dos gastos que torna difícil estimar, com precisão, o tamanho de seu impacto nos cofres federais. Economistas ouvidos por VEJA não titubeiam em prever um acentuamento da trajetória de crescimento da dívida pública, que manteve a tendência de alta ao longo de todo o atual governo.
“Hoje, o arcabouço fiscal do governo Lula não tem credibilidade nenhuma no mercado. Ninguém confia que ele vá controlar a dívida. Ano que vem, independentemente dessas medidas de agora, o governo, seja qual for, vai ter que repensar toda a institucionalidade de controle dos gastos e da dívida pública do país”, afirmou o pesquisador Rafael Barros Barbosa, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV.
Para o economista, o cenário para o próximo ano é “muito desafiador” . “Provavelmente será preciso fazer um arrocho maior do que se não houvesse essas medidas. Se não tivesse um pacote tão grande, não seria necessário o Banco Central reverter a tendência de queda da taxa de juros. Ainda precisaria fazer um ajuste fiscal, mas não tão apertado”, disse Barbosa.
Com uma enxurrada de estímulo ao crédito que pode chegar à ordem de 230 bilhões de reais, segundo a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), o governo Lula vai criar uma bola de neve que pode atingir o próprio presidente no ano que vem, se ele alcançar a reeleição.
“As famílias vão tendo acesso a crédito, vão comprar mais e isso tende a pressionar a inflação. Pressionando a inflação, a reação natural é aumento da taxa de juros no próximo ano e, aí, o governo entra em uma situação de ter que cortar gastos, porque não tem como expandir a receita. Vai ter que repensar o arcabouço fiscal enquanto a economia vai estar com o freio de mão puxado, porque o Banco Central vai tentar controlar a inflação”, resume o pesquisador da FGV.
COMENTÁRIOS

