Saúde
A ameaça da inflamação silenciosa ao coração
Novo estudo internacional mensura o impacto desse fator “oculto' no risco cardiovascular
VEJA
Graças aos avanços das últimas décadas, hoje milhões de pessoas conseguem controlar colesterol, pressão arterial e diabetes com medicamentos eficazes e mudanças no estilo de vida. Ainda assim, muitos pacientes continuam sofrendo infarto, derrame cerebral e insuficiência cardíaca. Por quê? Um grande estudo internacional acaba de reforçar uma das explicações para esse fenômeno: a inflamação persistente nos vasos sanguíneos e no coração.
Apresentado no congresso anual da Sociedade Europeia de Aterosclerose, realizado em Atenas, na Grécia, o estudo POSEIDON (sim, nome de deus grego) avaliou 18.904 pacientes em 18 países e concluiu que dois em cada cinco indivíduos com doença cardiovascular apresentam inflamação elevada, mesmo recebendo o tratamento considerado padrão atualmente.
A pesquisa analisou pessoas com a tal da aterosclerose — quadro em que placas de gordura se acumulam nas artérias — associada a doença renal crônica ou insuficiência cardíaca.
A inflamação é uma resposta natural do organismo a agressões, infecções ou lesões. O problema surge quando ela se torna persistente e silenciosa. Nesse cenário, o processo inflamatório passa a danificar vasos sanguíneos, acelerar o acúmulo de placas de gordura e favorecer eventos graves, como infarto e derrame cerebral.
Hoje, cientistas entendem que a aterosclerose não é apenas um problema de colesterol elevado. Ela também envolve um processo inflamatório contínuo dentro das artérias.
No estudo POSEIDON, os pesquisadores utilizaram um marcador sanguíneo chamado proteína C-reativa de alta sensibilidade, ou hsCRP, para medir a inflamação cardiovascular. Valores iguais ou superiores a 2 mg/L foram considerados indicativos de inflamação elevada.
O hsCRP já é usado em diversos países como marcador complementar de risco cardiovascular e vem ganhando espaço em diretrizes médicas internacionais.
Entre os participantes com doença cardiovascular aterosclerótica e doença renal crônica, 42,7% apresentavam inflamação persistente. Outro braço do estudo, publicado no European Journal of Heart Failure, mostrou resultado semelhante em pacientes com insuficiência cardíaca: cerca de dois em cada cinco também tinham inflamação cardiovascular elevada.
Os dados chamam a atenção porque a maioria desses pacientes já recebia tratamento convencional para fatores clássicos de risco, como colesterol alto, hipertensão e diabetes.
Segundo os autores, isso sugere a existência de um “risco residual inflamatório” — ou seja, um perigo cardiovascular que permanece mesmo quando os parâmetros tradicionais estão controlados.
Estes resultados mostram uma necessidade clínica não atendida e reforçam a importância de desenvolver terapias direcionadas especificamente contra a inflamação cardiovascular.
Nos últimos anos, medicamentos originalmente desenvolvidos para diabetes e obesidade também passaram a demonstrar benefícios cardiovasculares importantes. Parte desse efeito pode estar relacionada justamente à redução de processos inflamatórios.
Ainda assim, especialistas ressaltam que a inflamação cardiovascular é complexa e multifatorial. Não existe hoje um tratamento amplamente estabelecido voltado exclusivamente para combatê-la.
Mas a medicina baseada em evidências está atenta. Grandes sociedades médicas, como a European Society of Cardiology, a American Heart Association e o American College of Cardiology, já reconhecem a proteína C-reativa de alta sensibilidade como um marcador e exame relevante.
Os resultados não significam que todas as pessoas devam sair correndo para fazer exames específicos ou iniciar novos medicamentos. Devemos lembrar que o controle dos fatores tradicionais – colesterol, pressão, glicemia, peso… – continua sendo a principal estratégia de prevenção.
Parar de fumar, praticar atividade física, manter alimentação equilibrada, dormir bem e controlar os problemas crônicos de base seguem como pilares fundamentais.
Mas o estudo fortalece uma tendência importante na cardiologia moderna: a ideia de que o risco cardiovascular é mais amplo do que apenas números de colesterol.
Nos próximos anos, pesquisadores devem investigar quais pacientes mais se beneficiam de terapias anti-inflamatórias específicas e como incorporar essa abordagem à prática clínica de forma segura e eficaz.
Enquanto isso, o recado parece claro: mesmo quando exames tradicionais estão “em ordem”, o organismo pode continuar enfrentando uma inflamação silenciosa capaz de ameaçar o coração e as artérias .
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