Memória fotográfica é mito; veja o que a ciência diz sobre lembranças

FOLHA


Ciência derruba mito de memória fotográfica, difundida por personagens de Hollywood - Valery Hache - 19.mai.25/AFP

Hollywood adora um superpoder. Nem todos envolvem capas ou raios cósmicos. Alguns são cognitivos: personagens que conseguem lembrar de tudo. Em filmes e na TV, os espectadores encontram pessoas com mentes extraordinárias que olham uma única vez para uma página, um ambiente ou um rosto e depois recriam cada detalhe com precisão cirúrgica.

Mais recentemente, isso apareceu na série 'The Pitt', ambientada em um pronto-socorro. Quando o painel digital de pacientes ficou fora do ar de repente, a estudante de medicina Joy Kwon salvou o dia recitando de memória, sem esforço, cada detalhe perdido –nomes, quartos, médicos, condições, sinais vitais.

A ideia de memória fotográfica é simples e poderosa: a experiência é capturada objetivamente, armazenada completamente e recuperada perfeitamente. Veja uma vez, guarde para sempre. Há apenas um problema. Não existe evidência científica de que ela exista.

A memória humana não funciona como um dispositivo de gravação. É um processo reconstrutivo, mesmo entre aqueles com as habilidades mais extraordinárias. Quando você recorda um evento, a memória não simplesmente entrega suas experiências da mesma forma toda vez. Nunca é uma questão de simplesmente acessar, recuperar e reproduzir um registro estático de uma fatia armazenada do passado.

Em vez disso, você reconstrói o passado juntando os vestígios da experiência disponíveis para você no momento da recordação. É um processo moldado por uma série de fatores, incluindo as pistas de busca que você usa, seu conhecimento, atitudes e objetivos atuais, e seu estado de espírito ou humor no momento.

Como cada um desses fatores é dinâmico e mutável, você vai lembrar do passado de forma diferente hoje –mesmo que ligeiramente– de como lembrou ontem, e diferente de como vai lembrar amanhã. O que você lembra não é apenas incompleto, mas também inexato.

Algumas pessoas, como campeões de competições de memória, realmente têm memórias extraordinárias. Elas conseguem memorizar milhares de dígitos ou baralhos inteiros de cartas em minutos. Suas façanhas são reais, mas não vêm de uma memória que tira fotografias mentais.

Em vez disso, essas pessoas dependem de estratégias –estruturas mentais construídas através de milhares de horas de prática para dar suporte à memória em domínios específicos. Sem essas estratégias e em outros aspectos da vida, a capacidade de recordação delas se parece muito com a de qualquer outra pessoa. O desempenho dos especialistas reflete métodos melhores, não uma maquinaria diferente.

Na literatura científica, a habilidade que mais se aproxima da memória fotográfica é a imagem eidética: uma forma de imagem mental visual em que as pessoas afirmam conseguir brevemente continuar a 'ver' imagens que estudaram cuidadosamente e que depois foram removidas de sua vista.

Essa habilidade é rara, é vista principalmente em crianças e geralmente desaparece na adolescência. Mesmo em seu auge, porém, ela fica aquém do ideal hollywoodiano. Imagens eidéticas desaparecem rapidamente e não são perfeitamente precisas. Elas podem incluir distorções e até detalhes que não foram vistos.

O mito sobre memórias fotográficas alimenta a ideia de que sua memória falhou se você não consegue lembrar –que se sua memória funcionasse direito, ela operaria como uma câmera. Quando você não consegue recuperar informações ou as perde completamente, pode parecer que algo deu errado.

Na realidade, esquecer é funcional. Sem isso, nunca conseguiríamos seguir em frente.

Por exemplo, as pessoas usam suas memórias do passado para prever o futuro. Memória perfeita seria um problema. O esquecimento elimina os detalhes de episódios específicos e retém a essência para que você possa aplicar experiências passadas a situações novas, não apenas àquelas que correspondem exatamente ao que aconteceu antes.

Esquecer também protege sua saúde emocional. O enfraquecimento das memórias de eventos negativos torna mais fácil para você seguir em frente do que se você reexperimentasse todos os detalhes com força total toda vez que o evento viesse à mente.

Esquecer protege seu senso de identidade também. Memórias do seu passado formam a base da sua identidade. Para ajudar a manter um autoconceito estável, as pessoas modificam seletivamente ou até esquecem aquelas memórias que desafiam suas visões de si mesmas.

Os raros indivíduos que mais se aproximam de ter memória quase perfeita frequentemente revelam as desvantagens. Pessoas com memória autobiográfica altamente superior conseguem lembrar de quase todos os dias de suas vidas em detalhes vívidos. Se você perguntar a uma dessas pessoas o que ela fez em 24 de novembro de 1999, ela provavelmente consegue te contar.

A habilidade extraordinária parece vir de uma reflexão habitual, até compulsiva, sobre seu passado e um foco em ancorar memórias a datas. No entanto, essa habilidade é limitada a eventos autobiográficos, e elas são propensas a vários tipos de distorções e erros de memória assim como todo mundo.

Embora essa habilidade possa parecer uma vantagem, muitas pessoas com memória autobiográfica altamente superior a descrevem como exaustiva. Elas têm dificuldade em superar experiências negativas porque suas memórias as fazem parecer tão nítidas como sempre.

Crenças sobre 'memória perfeita' moldam como as pessoas julgam estudantes, testemunhas oculares, pacientes e até a si mesmas. Elas influenciam decisões legais, práticas educacionais e expectativas irrealistas sobre o que mentes humanas podem –e devem– fazer.

Abandonar a metáfora da câmera pode ser um passo em direção a uma melhor compreensão de como a memória funciona. O cérebro não é um rolo de filme, é um contador de histórias que edita, interpreta e remodela o passado à luz do presente.

Esse texto foi originalmente publicado em The Conversation. 



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