Saúde
Cigarro perde espaço para produto sem fumaça no faturamento de gigante do tabaco
FOLHA
Mais de 40% do faturamento da maior empresa de tabaco do mundo não vem mais do cigarro, mas dos chamados 'produtos livres de fumaça'. Em entrevista à Folha, o CEO da PMI (Philip Morris International), Jacek Olczak, afirma que essas alternativas são também o caminho para reduzir o número de fumantes e as doenças causadas pela inalação de tabaco.
No portfólio da empresa estão sachês de nicotina para absorção oral, vapes e o tabaco aquecido —espécie de minicigarro que não solta fumaça. Todos eles são proibidos no Brasil e em grande parte da América Latina, mas liberados nos Estados Unidos e parte da Europa.
No Brasil, a PMI fabrica cigarros em Santa Cruz do Sul (RS). Esse é o único produto da empresa liberado no país. As principais marcas são Marlboro, L&M e Chesterfield.
Os dados do primeiro trimestre de 2026 mostram que as receitas dos itens sem fumaça cresceram 24,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto o faturamento dos produtos de combustão da empresa avançou 6,8% no período.
O presidente da PMI diz que o cigarro vai praticamente desaparecer em alguns países nos próximos dez anos, desde que haja alinhamento entre indústria e órgãos reguladores para alcançar esse objetivo. Olczak dá como exemplo o Japão e afirma que a oferta dessas alternativas ajudou a reduzir o número de fumantes pela metade em dez anos naquele país.
Para ele, o Brasil e outros locais que proíbem a comercialização desses produtos, por outro lado, terão aumento no número de usuários de cigarro nos próximos anos. 'Se o Brasil continuar o que está fazendo, daqui a 40 anos você vai ter mais fumantes do que tem hoje', afirma o executivo.
'O que está acontecendo em lugares como o Brasil, o Vietnã, a Turquia, que estão presos ao passado? Infelizmente, as taxas de tabagismo estão subindo ante os países que permitiram alternativas, em que você pode ver uma aceleração rápida de declínio do tabagismo.'
O percentual de fumantes adultos no Brasil era de 34% em 1996 e 9,1% em 2021. Em 2024, estava em 11,6%. Apesar do aumento, o país é citado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como um dos que mais avançaram no controle do tabaco.
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) proíbe desde 2009 a importação, publicidade e comercialização de DEFs (Dispositivos Eletrônicos para Fumar), o que inclui cigarros eletrônicos com vapor inalado, tabaco aquecido e vaporizadores de ervas secas.
A agência americana FDA (Food and Drug Administration), por outro lado, permite a comercialização desses itens nos EUA. Neste mês, a entidade renovou a autorização para o tabaco aquecido da PMI, o IQOS.
Segundo a FDA, 'estudos científicos demonstraram que a transição completa dos cigarros convencionais para o sistema IQOS reduz significativamente a exposição do organismo a substâncias químicas nocivas ou potencialmente nocivas'. A agência alerta, no entanto, que 'não existe produto de tabaco seguro'. Nos EUA, a venda desses produtos é proibida para menores de 21 anos.
A OMS diz não haver provas dos benefícios desses produtos para a saúde pública e recomenda que todos os países regulem bolsas de nicotina, cigarros eletrônicos, produtos de tabaco aquecido e tabaco sem fumaça com o mesmo rigor dos produtos tradicionais. A entidade tem ressaltado a preocupação com o uso de tabaco e produtos de nicotina por adolescentes.
O CEO da PMI contesta as afirmações de que esses produtos são tão nocivos quanto cigarros. Ele diz que a posição da companhia está baseada em estudos da empresa e pesquisas independentes, que têm balizado também as decisões de agências como a FDA.
'É a combustão que cria o problema. Se você queima qualquer matéria orgânica, não precisa ser tabaco, vai inalar centenas de milhares de substâncias tóxicas. Algumas delas são cancerígenas', afirma Olczak.
'A nicotina é uma substância viciante, mas não é cancerígena em si. O sachê é muito diferente de um cigarro, essencialmente contém apenas nicotina. O tabaco aquecido sem queima ou o vape são mais próximos do cigarro, ainda é inalação, mas reduzem a exposição às substâncias tóxicas entre 90% e 95%.'
O executivo diz que as medidas utilizadas nas últimas décadas para reduzir o consumo de cigarro —como impostos mais altos e proibições— pararam de dar resultados. Para ele, a única forma de acelerar rapidamente o declínio do tabagismo é dando às pessoas acesso a alternativas para o uso de nicotina.
'As pessoas não deveriam começar a fumar. Se começaram, deveriam parar. Essa é a forma idealista de olhar para isso. Mas a realidade é que, depois de 40 anos ou mais de todas essas campanhas, elas não pararam. Então talvez seja preciso mudar a estratégia', diz Olczak. 'Esses produtos são melhores do que continuar fumando.'
A frase é uma referência ao lema adotado pela empresa na última década: 'Se você não fuma, não comece. Se fuma, pare. Se não parar, mude [para produtos sem fumaça]'.
Questionado sobre uma das preocupações da OMS e de autoridades brasileiras, de que esses produtos se tornem uma forma de atrair novos consumidores e uma porta de entrada para adolescentes no tabagismo, ele afirma que isso não se confirmou em dez anos de venda desses itens pela empresa.
'O IQOS é vendido globalmente em tantos lugares, e não há um único país onde você possa encontrar qualquer nível preocupante de uso por jovens ou menores de idade.'
Olczak afirma que os resultados em termos de redução no tabagismo não são apenas encorajadores, mas confirmam que a empresa acertou em concentrar seus investimentos nesses produtos. No ano passado, 99,7% dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento da PMI foram direcionados a esses itens. Desde 2008, são US$ 16 bilhões (cerca de R$ 80 bilhões) em investimentos.
Em relação aos problemas documentados em diversas pesquisas sobre o cigarro eletrônico, a empresa tem afirmado que o risco está no uso de dispositivos ou conteúdo refil de marcas desconhecidas, que podem aquecer o conteúdo além da temperatura necessária ou conter substâncias químicas não autorizadas pelos órgãos reguladores.
'No Brasil, do lado oficial, os produtos não são permitidos. Do lado ilícito, são permitidos. Há demanda porque os fumantes estão procurando uma alternativa melhor. [Mas] Ninguém sabe o que tem nos produtos ilícitos. É um mercado totalmente desregulado. Os governos não estão arrecadando e não fazem ideia do que está no mercado', afirma o CEO da PMI.
Neste mês, Olczak participou da Technovation 2026, evento global promovido pela PMI que ocorreu pela primeira vez nos EUA para discutir avanços em ciência e tecnologia voltados à redução de danos do tabaco.
O número de usuários de tabaco caiu de 1,38 bilhão em 2000 para 1,2 bilhão em 2024, segundo a OMS. Um em cada cinco adultos em todo o mundo ainda é dependente do tabaco.
No final de 2025, os usuários de produtos sem fumaça da PMI somavam 43 milhões nos 106 mercados onde pelo menos um deles pode ser comercializado.
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