Saúde
‘Duas vezes na loteria’: paciente entra em remissão inesperada do HIV após transplante de medula
Paciente norueguês recebeu medula do irmão para tratar câncer — e só depois médicos descobriram mutação genética rara associada ao controle do HIV
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Um paciente norueguês de 63 anos entrou em remissão do HIV após ser submetido a um transplante de medula óssea do próprio irmão, indicado inicialmente para tratar um câncer no sangue.
O caso, conhecido como “paciente de Oslo”, foi descrito em um estudo publicado nesta segunda-feira, 13, na revista Nature Microbiology.
Por mais que chame atenção, esse não é o primeiro caso do tipo. Até meados de 2024, ao menos sete pessoas haviam sido consideradas curadas ou em remissão do HIV — quando o vírus não é detectável e não causa danos, mesmo sem tratamento, embora ainda possa persistir em níveis muito baixos no organismo — após passarem por transplantes de medula para tratar neoplasias hematológicas.
Nesse tipo de procedimento, um fator faz diferença: a presença da mutação genética CCR5, capaz de impedir a entrada do HIV nas células e, na prática, permitir que o sistema imunológico elimine o vírus.
O paciente vivia com HIV desde 2006 e recebeu o diagnóstico de câncer em 2017. Sem o transplante, o prognóstico era considerado desfavorável. A equipe médica tentou inicialmente encontrar um doador compatível que fosse portador da mutação CCR5, mas não teve sucesso. A alternativa foi recorrer ao irmão mais velho, com maior probabilidade de compatibilidade genética.
É aqui que mora a particularidade dessa história. Após o transplante, os médicos identificaram que o irmão também carregava a mutação CCR5 – uma característica rara, presente em cerca de 1% da população naquela região. O próprio paciente descreveu a coincidência como “ganhar duas vezes na loteria”, segundo relato do médico Anders Eivind Myhre, autor principal do estudo à AFP.
Dois anos após o procedimento, o paciente suspendeu a terapia antirretroviral. Desde então, o HIV não é mais detectado em seu organismo. De acordo com Myhre, ele “está em plena forma”.
Por que o transplante de medula não é uma estratégia comum no tratamento do HIV?
Apesar de casos emblemáticos demonstrarem que é possível alcançar uma remissão funcional do HIV, essa abordagem está longe de ser aplicável em larga escala.
O transplante de medula óssea é um procedimento complexo, que exige a destruição prévia da medula do paciente com quimioterapia intensiva e, por vezes, radioterapia. Esse processo compromete o sistema imunológico, aumentando o risco de infecções graves e outras complicações.
Na prática, é o tipo de procedimento com um nível de risco que não se justifica frente ao tratamento atual do HIV, que permite controle eficaz da infecção.
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