Saúde
Ultraprocessados: quando a “comida prática' vira caso de saúde pública
Da ação em São Francisco ao alerta da ciência sobre o impacto desses produtos na nossa saúde
BATANEWS/BATANEWS/VEJA / GILBERTO URURAHY*
Na rotina corrida, a promessa de praticidade parece irresistível: tudo pronto, embalado, com validade longa e consumo imediato. Mas, enquanto empilhamos produtos industrializados no carrinho, a ciência vem mostrando um movimento preocupante: os ultraprocessados estão substituindo a comida de verdade e se tornaram um problema central de saúde pública.
Uma série recente publicada na revista The Lancet, com participação de pesquisadores da Universidade de São Paulo, reuniu evidências de vários países e foi direta na conclusão: dietas ricas em ultraprocessados degradam padrões alimentares tradicionais, pioram a qualidade da alimentação e aumentam o risco de múltiplas doenças crônicas. A base conceitual deste trabalho é a classificação chamada NOVA, desenvolvida na USP, que divide os alimentos em grupos de acordo com o grau de processamento (dos alimentos in natura e minimamente processados até os ultraprocessados). Nessa ótica, o problema não é só a presença de sal, açúcar ou gordura, mas o conjunto de ingredientes industriais, aditivos e etapas de processamento que desestruturam o alimento original e mudam a forma como o organismo lida com o que chega ao prato.
Esse alerta ganhou ainda mais força com a divulgação das novas Diretrizes Alimentares para Americanos 2025 – 2030 (Dietary Guidelines for Americans). O novo guia define “real food” como alimentos integrais, densos em nutrientes e naturalmente presentes na natureza, e coloca esses itens de volta no centro da dieta. As diretrizes enfatizam o aumento do consumo de verduras, frutas, grãos integrais e proteínas de qualidade, ao mesmo tempo em que recomendam limitar açúcares adicionados, grãos refinados, bebidas açucaradas e alimentos altamente processados. É apresentado como a maior redefinição recente da política de nutrição nos Estados Unidos e está alinhado à preocupação crescente com o papel dos ultraprocessados na epidemia de doenças crônicas.
Os números ajudam a dimensionar o desafio. Em países como Reino Unido e Estados Unidos, mais de 50% da energia consumida já vem de ultraprocessados. Em Brasil e México, a participação desses produtos nas dietas aumentou cerca de 13% nas últimas décadas. Ao mesmo tempo, menos de 25% da população adulta brasileira atinge a quantidade mínima de frutas e hortaliças recomendada pela Organização Mundial da Saúde. A série da The Lancet relata que dietas baseadas em ultraprocessados tendem a ser mais calóricas, com pior perfil nutricional e maior exposição a substâncias potencialmente nocivas, associando-se a obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer, depressão e aumento de mortalidade por todas as causas. Pesquisadores lembram ainda que o problema envolve também a desestruturação da matriz alimentar e compostos gerados no processamento ou vindos da própria embalagem.
O tema saiu dos artigos científicos e chegou aos tribunais. Em São Francisco, na Califórnia, o procurador municipal David Chiu entrou com uma ação contra grandes fabricantes de ultraprocessados afirmando que esses produtos “estão nos deixando doentes” e que foram desenhados para serem desejados e consumidos de forma repetida. Ele destaca que nem todos se apresentam como “junk food” clássica: muitas vezes chegam ao consumidor como barrinhas “fits”, iogurtes proteicos, snacks “integrais” ou bebidas “zero”, associados, na comunicação, à saúde e ao bem-estar. Ao mesmo tempo, estudos citados na série da The Lancet mostram que os ultraprocessados se tornaram o segmento mais lucrativo da indústria alimentícia, com vendas da ordem de trilhões de dólares anuais, impulsionadas por ingredientes baratos, marketing agressivo e forte atuação política para barrar regulações mais duras.
Do ponto de vista da medicina preventiva, o recado é claro: quando uma alimentação baseada em ultraprocessados se soma ao sedentarismo, à privação crônica de sono e ao estresse prolongado, o resultado aparece anos depois em forma de doenças crônicas que drenam qualidade de vida e recursos de sistemas de saúde. Não é correto responsabilizar apenas o indivíduo que faz escolhas apressadas em um ambiente saturado por esse tipo de produto. Mas também não podemos ignorar o espaço real de ação que existe no nível pessoal, familiar e institucional.
Políticas públicas mais firmes são parte essencial da resposta: rotulagem clara que informe o grau de processamento, restrição à publicidade dirigida a crianças, revisão do ambiente alimentar em escolas e instituições públicas, estímulo à produção e ao acesso a alimentos in natura ou minimamente processados, especialmente para populações mais vulneráveis. Em paralelo, no dia a dia, cozinhar mais – mesmo pratos simples –, planejar minimamente as refeições, ler a lista de ingredientes e dividir as tarefas da cozinha dentro de casa ajudam a reduzir a dependência de produtos prontos. Quanto mais a base da alimentação for formada por alimentos de verdade – como grãos, legumes, frutas, verduras, ovos e preparações caseiras –, menor tende a ser o espaço para os ultraprocessados.
Ultraprocessados não são apenas um detalhe da dieta moderna. São um eixo importante da crise global das doenças crônicas. Enfrentar esse cenário exige ação coordenada de governos, profissionais de saúde, sociedade civil e famílias. A prevenção, nesse contexto, começa antes do consultório: passa pelo que colocamos no prato todos os dias e pelas condições que o sistema alimentar oferece – ou não – para que escolhas mais saudáveis sejam, de fato, possíveis.
*Gilberto Ururahy é diretor-médico especializado em medicina preventiva na Med-Rio Check-up, membro honorário da Academia Brasileira de Medicina de Reabilitação, condecorado com a Medalha da Academia Nacional de Medicina da França e Conselheiro Estratégico da ABRH – Brasil.