Em resposta aos EUA, Brasil defende o Pix e rejeita acusações de práticas comerciais desleais

O governo Lula afirma que regras do sistema garantem segurança e concorrência, contesta acusações e rejeita investigação

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O presidente Lula (PT). Foto: Evaristo Sá/AFP

O governo Lula (PT) enviou nesta segunda-feira 18 um relatório de 91 páginas em resposta à investigação aberta pela gestão de Donald Trump sob a acusação de que o Brasil adota práticas “desleais' no comércio bilateral. 

A manifestação assinada pelo chefe do Itamaraty, o ministro Mauro Vieira, contesta cada uma das seis frentes analisadas pelos norte-americanos e insiste que eventuais medidas unilaterais violariam regras da Organização Mundial do Comércio.

A apuração dos EUA, conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio (USTR), começou em julho , com base na Seção 301 da Lei Comercial, que autoriza Washington a investigar práticas de outros países consideradas irregulares. No mês passado, Trump já havia determinado o tarifaço sobre produtos brasileiros, em vigor desde 6 de agosto.

O relatório dedica especial atenção às críticas ao Pix . O Brasil argumenta que as normas do sistema de pagamentos instantâneos foram desenhadas para “segurança, estabilidade e proteção do consumidor, sem restrições discriminatórias a empresas estrangeiras'. O governo destaca ainda que o modelo foi elogiado pelo FMI e pela OCDE.

Segundo o texto, grandes empresas estrangeiras participam ativamente do sistema: “Notadamente, a iniciação de pagamentos por provedores terceiros vem crescendo a uma taxa mensal de 25% neste ano, sendo o Google Pay o maior iniciador, processando aproximadamente 1,5 milhão de transações via Pix no mês passado', cita o documento. O governo acrescenta que a iniciativa inspirou projetos semelhantes na União Europeia, na Índia e até nos EUA, cujo banco central lançou o FedNow .

Sobre decisões do Supremo Tribunal Federal envolvendo big techs , o Itamaraty afirma que não se trata de restrições a empresas americanas, mas de medidas para garantir cumprimento da lei . “Em resumo, nenhuma das alegações em relação à decisão do STF ou às ordens judiciais subjacentes resulta em medidas discriminatórias que afetem de forma indevida os direitos fundamentais de qualquer parte ou a capacidade das empresas norte-americanas de participar competitivamente nos mercados brasileiro ou global.'

Além do setor digital, o governo brasileiro contestou os demais eixos da investigação:

O relatório afirma que o Brasil não adota políticas discriminatórias e que o comércio bilateral é “mutuamente benéfico', lembrando que os EUA mantêm superávit histórico na relação . “Os Estados Unidos não são prejudicados por sua relação comercial com o Brasil; pelo contrário, comprovadamente se beneficiam dela', diz.

O texto insiste que a Seção 301 não tem validade jurídica no sistema internacional: “O Brasil reitera sua posição de longa data de que a Seção 301 é um instrumento unilateral inconsistente com os princípios e regras do sistema multilateral de comércio.'

Ao mesmo tempo, a manifestação busca reduzir o atrito, ressaltando que a entrega do documento representa abertura ao diálogo, não aceitação do processo: “A participação do Brasil, por meio desta submissão escrita, deve ser entendida como uma disposição para realizar consultas e prestar esclarecimentos. Não deve ser interpretada como um reconhecimento da jurisdição ou validade deste procedimento unilateral'.

Agora, o USTR seguirá analisando o caso, que pode durar ao menos um ano. Uma audiência pública está prevista para 3 de setembro, com a presença de representantes de empresas, entidades e governos. Se as acusações prosperarem, Trump poderá impor novas barreiras a produtos brasileiros, elevando ainda mais a tensão entre os dois países.



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